Realismo Fantástico

textos jornalísticos e afins;

31 de mar. de 2009

Cidades invisíveis
Nas metrópoles, nos bairros, nas pessoas, são camadas diferentes de vida que vão existindo. Nada é sempre claro e transparente como um raio de sol atravessando um copo d’água. Todos os dias, são várias Curitibas que vão acontecendo em um mesmo momento. Cada observador vai construindo para si a sua imagem da cidade. Mais violenta para uns, moderna para outros ou ainda modelo para terceiros. É tudo isso e nada disso. Sempre ao mesmo tempo.
Nas esquinas e nos olhares, a cidade de cada morador se cruza com a do outro, criando uma teia de pontos de vistas distintos. São cidades invisíveis que vão se desenvolvendo arbitrariamente; são quase dois milhões de Curitibas que coexistem. Uma, no entanto, é a mais invisível de todas: a Curitiba que existe debaixo de nossos pés e olhos.
São quilômetros e mais quilômetros de galerias pluvias, que recebem água das chuvas, dos rios, do homem que lava seu automóvel no sábado de sol. Há ainda os canos da rede de esgoto que levam descargas de vasos sanitários, água misturada com espuma de pasta de dente vinda de bocas com hálito fresco ou o que sobrou da lavagem das panelas de um restaurante chique. Toda essa água suja escoa pelo ralo, viaja pelas profundezas do asfalto e vai parar em estações de tratamento, que devolvem a melhor água possível nas torneiras.
Além do sistema de rede de esgoto ou galerias pluvias, esta terra que tudo dá ainda abriga: cabos de fibra óptica das companhias de telefonia; tubos de gás que levam fogo aos edifícios; estações de energia elétrica que iluminam as noites frias da Rua das Flores e de outros pontos da região central de Curitiba. São dezenas de serviços oferecidos à população por debaixo de tudo.
No subterrâneo da cidade, uma vida que ninguém vê acontece. Uma vida formada por um emaranhado de galerias, canos, tubos, túneis, excrementos, água, baratas, teias de aranha, lixo, sofás e outras coisas inimagináveis. Depois dessa viagem ao centro da terra, só há uma certeza: o chão em que se pisa não é tão sólido quanto se pensa.

O cheiro do ralo
No dia 21 de fevereiro de 2008 não choveu em Curitiba. Por volta das 13 horas, muito gente se surpreendeu ao se deparar com a Avenida Visconde de Guarapuava fechada. "O trânsito de Curitiba está cada vez pior", pensaram alguns. "Um acidente horrível aí na frente", passou pela cabeça de outros. Enquanto a imaginação das pessoas agia, Luci Machado Santana, com 26 anos na época, era resgatada de dentro de um bueiro. A mulher havia passado mais de cinco horas vagando por mais de dois quilômetros de galerias pluviais no subterrâneo de Curitiba.
Luci entrou em uma grande abertura, de cerca de dois metros, que existe na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico. Relatou que estava fugindo de traficantes. O que passou debaixo da terra, só ela e Deus sabem. Pode-se, no entanto, afirmar: não deve ter sido nada fácil. Na primeira parte do trajeto, Luci deve ter conseguido enxergar alguma coisa, pois a luz do sol ainda penetra pela entrada da galeria. A medida em que se vai andando - sempre com a água correndo entre as pernas - só a imensa escuridão vai crescendo à frente. Mesmo que os olhos se acostumem, chega um momento que em a luz é só uma lembrança e a treva se faz. A sensação é a mesma que entrar em uma caverna, mas sabendo que a cidade está ali em cima, a poucos metros da cabeça.
A mulher só conseguiu sair viva na Visconde de Guarapuava por um motivo: no dia 21 de fevereiro do ano passado fez sol na Capital mais fria do País. Caso a chuva tivesse caído em Curitiba, provavelmente Luci teria morrido afogada e seu corpo talvez nunca fosse encontrado. Na sua caminhada, deve ter escorregado e caído várias vezes, pois o terreno é irregular, com pedras e restos de cimento; em outros pontos, a lama misturada com lixo faz com que os pés afundem. Como a maioria das pessoas, Luci deve ter sentido asco da água em que pisava - pois, apesar de não ser esgoto, o cheiro é forte. E fica pior a medida em que se permanece dentro da galeria. Causa vertigem.
Não deveria ser assim. A água que corre em galerias pluviais deveria ser mais limpa do que é. A população contribui com a poluição jogando lixo nos rios, nas ruas, nos bueiros. De uma forma ou outra, tudo acaba sendo despejado nas águas que correm para os rios. "Objetos como sofás, geladeiras e fogão são comuns", diz Djalma Mendes do Santos, gerente da Bacia do rio Belém da Secretaria Municipal de Obras da Prefeitura de Curitiba, órgão que administra as galerias pluviais.
Existem ainda as ligações ilegais entre as redes de água e esgoto, o que acaba prejudicando os dois. "Se não houvesse o lixo, o aspecto das galerias pluviais seria bem diferente. Até a questão do cheiro", diz o engenheiro civil e sanitarista Almir Bonatto,
do Departamento de Pontes e Drenagens da Secretaria de Obras. O cheiro da água não é o único problema. A poluição leva ao entupimento das galerias e, consequentemente, a enchente de muitos pontos de Curitiba.
O ponto em que a mulher que parou a Visconde de Guarapuava entrou é justamente onde o rio Belém, que corta Curitiba, passa por baixo de ruas, avenidas, prédios, pessoas e carros. A nascente do rio fica quase na divisa com o município de Colombo. O rio corre aberto até o Centro Cívico, corta todo o Centro da cidade dentro das chamadas galerias celulares (caixas de concreto de cerca de dois metros), e volta a ficar a céu aberto na região da Rodoferroviária. Por fim, deságua no rio Iguaçu. Curitiba ainda é cortada pelos rios Atuba e Barigui.
Além das galerias celulares principais, existem milhares de outras galerias secundárias que abrigam a água que cai em bueiros ou bocas-de-lobo, na linguagem popular, ou caixa de captação, como é denominada em termos técnicos. Na prefeitura de Curitiba, não há um levantamento de quantos quilômetros de galerias pluviais existem debaixo da terra, nem qual o volume de água que corre nos túneis. Os engenheiros afirmam, porém, que geralmente as galerias seguem o mesmo caminho das ruas.
Já a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que administra o recolhimento e tratamento do material que escoa na rede de esgoto, informa que, até fevereiro deste ano, exatamente 5.491 quilômetros de tubos passavam por baixo de Curitiba. Se colocados em linha reta, representam uma viagem da Capital paranaense até Salvador, na Bahia. Desses mais de cinco mil quilômetros, 455 deles são tubos de grandes dimensões (chamados de coletores troncos e emissários), ou seja, permitem que pessoas caminhem por debaixo de Curitiba por quase 500 quilômetros.
A tubulação recolheu, também em fevereiro, um total 6.954.867 metros cúbicos de esgoto. A média do volume coletado nos últimos 12 meses é 6.886.183 metros cúbicos. São quase sete bilhões de litros de esgoto recolhidos por mês, em média, em Curitiba. Hoje, 85% do esgoto da cidade é recolhido.
O sistema que recolhe o esgoto é separado do que recolhe a água da chuva, ao contrário do que muitos imaginam. Nas galerias do esgoto, é quase impossível - e não recomendável - entrar, devido ao mau cheiro, a ameaça de contrair doenças, e até mesmo pelo risco de morte, devido a quantidade de gases tóxicos que são liberados dentro dos coletores. Hoje, a manutenção é feita por caminhões e jatos de água. Para entrar, só com muita proteção, como máscaras e botas. "Mesmo protegido, já vi muito companheiro pegar micose. Eu não peguei!", ri Élsio Selbmann, agente técnico administrativo, que há 21 anos trabalha na Sanepar. Ele já entrou algumas vezes na rede de esgoto, hoje não mais.
Nessa vida toda dedicada ao que se passa nos subterrâneos de Curitiba, Selbmann diz já ter visto muita coisa estranha correndo em meio ao esgoto. Animais mortos, como cachorros e gatos, são comuns. Ele conta, no entanto, que o maior momento de tristeza no trabalho foi quando viu, pela primeira vez, um feto boaindo na água. A prática ilegal não chega a ser comum, mas também não é uma raridade.
"As pessoas nunca imaginam o que se passa ai embaixo", diz ele. A confidência de Selbmann o leva a uma reflexão. Sobre o que se passa no submundo (literalmente) de Curitiba, ele medita: "Lá embaixo é um mundo que ninguém vê".

Velvet underground
Quem vê a agitação das ruas do Centro de Curitiba pode não imaginar que, invariavelmente, a cidade desperta preguiçosa. Todas as manhãs, é o homem de bigodes que empurra para cima a porta do comércio, a jovem com fones de ouvido que corre para não peder a condução, a mulher da vida e os últimos boêmios que, fora das convenções, voltam para casa. ''Quanto mais cedo, melhor, por que a gente vai ter que fechar a rua'', diz Alcione José Gonçalves, funcionário da Prefeitura de Curitiba há 22 anos. Ele se refere a melhor hora para entrar em uma galeria pluvial pelo meio da rua: tem de ser quando a cidade ainda não está inteira acordada. O ponto escolhido foi a Rua Pedro Ivo, no Centro de Curitiba, onde o Rio Ivo há muito passa sob o asfalto.
Na noite anterior a descida, chovera. A dúvida era se o nível da água não estaria muito alto. Já lá dentro, Gonçalves confirma que não. Apesar de ser a cerca de dois metros abaixo do chão, não se desce para a galeria sem apreensão. A escada de madeira já treme com o piso irregular e a força da água. Lá embaixo, esta corria na altura da canela. O cheiro é forte; de bueiro. A luminosidade é parca. Um único raio de luz, grosso, penetra pelo buraco que dá lugar a tampa metálica retirada. Em torno do buraco, ainda é possível enxergar um pouco. Alguns passos à frente, só com a ajuda das lanternas - que perdem a batalha contra o negrume da escuridão.
Para frente e para trás do ponto onde se desce - ponto este marcado pela luz entrando - só há uma escuridão infinita. No fundo da terra, não é possível se ter noção nenhuma: nem de tempo, nem de distância. É o que confirma o técnico da prefeitura. Ele conta que sempre se perde no dia quando o passa no subsolo.
Gonçalves indica o caminho: para frente, contra a correnteza, que não para nunca de surgir. Em cima, sem que isso viesse à memória, está a Pedro Ivo, no sentido à Barão do Rio Branco. Nas profundezas de Curitiba, quase não há barulho - só de água correndo, feito os rios que ainda não foram parar debaixo das cidades. A única companhia são das baratas, de todos os tamanhos, tipos, tons de coloração.
Debaixo da terra, a impressão é de filme de ficção científica, como se aquele fosse os escombros de um mundo pós-atômico, destruído por uma bomba de hidrogênio. O que sobrou do fim do mundo foram as imortais baratas, o cheiro de gás sulfídrico (liberado pela decomposição da matéria), a água nojenta que corre entre as pernas e uma noite eterna - talvez fruto da poeira da explosão, que tampa qualquer possibilidade de que os raios de sol penetrem e cheguem a superfície. Lá embaixo não há companhia, nem perspectiva de vida, nem felicidade. O subterrâneo de Curitiba - como o de qualquer outra cidade - é tão triste quanto uma morte injusta.
Alguns passos à frente (já debaixo da Rua Barão do Rio Branco), um buraco revela o entroncamento de uma outra galeria. Esta é mais antiga. Na prefeitura, ninguém sabe quando foi construída, mas imagina-se que seja uma das primeiras da cidade. Erguida com pedras e tijolos, forma um arco entre as cabeças de quem está embaixo e os pés apressados que cruzam a rua. É intrigante, amedrontadora, com um cheiro de passado e história. Dezenas de canos desembocam nesta galeria, que se liga à principal, na Rua Pedro Ivo. No chão, lodo misturado com areia, resto de lixo, canos quebrados e enferrujados, e três bueiros por onde a luz entra. Alguns passos mais, já no fim da quadra, a galeria é interrompida por uma parede.
De repente, no fundo dessa galeria pluvial com aspecto de uma masmorra medieval, um barulho semelhante a um estrondo de trovão ecoa por debaixo da terra. ''Chuva''. Dependendo do volume de água despejado dos céus, as galerias pluviais se enchem rapidamente, diz Gonçalves. É preciso sair rápido. Felizmente, era só um caminhão ou algo assim que cruzava a Rua Barão do Rio Branco. Lá fora, um sol ainda tímido se expremia entre nuvens de chumbo, anunciando o dia que apenas começara.

Histórias fantásticas
O emaranhado de túneis que existem no subterrâneo de uma grande cidade é uma metáfora assombradora do cérebro humano e seus neurônios. Ambos (túneis e neurônios) são caminhos desconhecidos, sem luz na maioria das ramificações, pulsando energia e movimentando tudo - corpo e cidade. Conversar com o empresário Marcos Juliano Ofenback é ser levado pela empolgação de suas ondas cerebrais; é acreditar em conspirações, sociedades secretas, acontecimentos inimagináveis que se desenvolveram bem abaixo de nossos pés. O empresário não está interessado na história oficial de Curitiba. Ele quer saber do que aconteceu debaixo da terra. É nisso que ele acredita, pesquisa e acaba por fazer as pessoas acreditarem também.
Para quem não ligou o nome à pessoa, uma lembrança. Ofenback ficou conhecido em meados de 2007 por levar a todo canto (páginas de revistas e jornais, programas de televisão) uma história que define como ‘’fabulosa; no limite da fantasia’’. A história diz respeito ao túneis secretos que, segundo Ofenback, cortam todo o Centro de Curitiba. Esses túneis não são galerias construídas para escoar água da chuva ou esgoto, são caminhos escondidos que durante muito tempo ligaram igrejas, clubes sociais, sedes do governo, residências das grandes famílias.
Imagine a Curitiba do século XIX ou a que existiu durante a Segunda Grande Guerra, na década de 40. Pense que nessa época, pontos importantes da cidade, como a Igreja Matriz e o Clube Concórdia, eram interligados por debaixo da terra, para uso militar. Como Ofenback, acredite na realidade desses fatos e uma história fantástica se faz diante dos olhos. ‘’Os militares usaram esses túneis durante a guerra para se proteger’’, afirma o empresário. É uma outra Curitiba - histórica, conspiratória, misteriosa - que se apresenta. Ainda assim uma Curitiba invisível. Muitos desse túneis, no entanto, não precisam de imaginação: eles existem.
Entre os já tornados públicos pelo empresário está o do Clube Concórdia, reduto alemão em Curitiba. Um alçapão em uma das salas do clube serve de entrada para o local que, depois de alguns metros, é interrompido por uma parede. Na Sociedade Garibaldi, Ofenback diz que há um túnel semelhante. Já na Igreja Matriz, a entrada para o túnel que a ligaria com outros pontos subterrâneos do Curitiba está tampada, mas é possível ver parte da escada usada para descer. ‘’Os túneis eram construídos debaixo das igrejas pois estas não eram bombardeadas durante as guerras’’, explica o pesquisador.
Indícios dão conta ainda da existência de ligações secretas no Colégio Estadual do Paraná (Ofenback procurou, mas não achou), em pontos altos do bairro Pilarzinho, em residências no bairro Mercês. Na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, um túnel teria funcionado como depósito de armas para o exército, na Segunda Guerra; na Rua Barão do Rio Branco, túneis ligariam as antigas casas da região. A descoberta mais recente de Ofenback foi uma entrada em um terreno em frente à Câmara Municipal. O buraco, com uma escada deteriorada, tem quase seis metros. No local, funcionava, em meados do século 20, um depósitos de bondes. Ofenback investiga ainda a existência de túneis em quase todas as igrejas da região central. ‘’É assim em quase todas as grandes cidades’’, resume.
Nada, porém, pode ser provado com certeza - nem a existência de dessas ligações, nem a sua real utilização. De acordo com o pesquisador, quase não há documentos sobre o assunto, o que impede de comprovar datas de construção ou quais as finalidades dos túneis.
Mesmo que tenham existido (ou ainda existam) de fato, é quase impossível que as ligações estejam intactas, já que os prédios mais modernos exigem a construção de fundações que podem ter interrompido os caminhos. É um mistério que, talvez, nunca poderá ser provado ou percorrido. O que não deixar de motivar Ofenback, que fala com empolgação de seus planos, ideias, projetos - estes sempre envolvendo os túneis, tão misteriosos e intrigantes quanto as ligações cerebrais.
________________
(na folha de londrina, março de 2009)

9 de fev. de 2009

Anônimo
A ''vózinha'' não sabe qual idade tem. Sua casa, se é que o barraco em que vive pode receber este nome, fica cravada no meio do Jardim União, em uma das regiões mais pobres e violentas do bairro Uberaba, em Curitiba. O sofá tem um buraco no meio. Restos de arroz e feijão estão espalhados por todo o canto. Sobre uma cadeira de palha, o que parecem ser veneno e excremento de rato se misturam a pequenas cápsulas cinza que lembram comprimidos. O cheiro é forte, quase irrespirável, e as tábuas de madeira que sustentam a casa estão apodrecidas pelos anos, de modo que a luz, o frio e a umidade penetram cada vez mais pelas frestas que vão surgindo. No teto, poeira e teias de aranha formam um emaranhado de uma massa amorfa, sufocante.
A ''vózinha'' vive sozinha ali. Quase não consegue falar. Os dois filhos moram na casa da frente, em melhores condições. Ela tem ainda cinco netos, que ''estão por aí''. Os filhos, ela diz que estão trabalhando - os agentes sociais que auxiliam ''vózinha'' revelam que o filho é pintor e a filha é prostituta. O nome dessa senhora que vive abaixo da linha da pobreza é Vergínia Maria de Jesus - ou algo próximo disso; impossível determinar. E nem adianta perguntar: ela não se lembra de Osíris Del Corso.
Ainda assim, Osíris frequentava a casa da 'vózinha''. Sua casa foi a última visitada pelo jovem antes de ele ser assassinado com um tiro no peito, no último final de semana, em uma trilha no Morro do Boi, em Caiobá, no Litoral do Estado. Junto com Osíris, a namorada de 23 anos foi estuprada e continua internada em um hospital em Curitiba. A última visita foi no dia 23 de dezembro de 2008, dois dias antes do Natal, ocasião em que Osíris levou uma cesta básica e sua companhia. Conversou amavelmente com a ''vózinha'', como sempre fazia, e limpou a casa - talvez a última faxina que o local tenha recebido.
As visitas faziam parte do trabalho social que o jovem de 22 anos realizava. Osíris era presidente do Rotaract, grupo de jovens do Rotary que tem a função de promover ações sociais. Como ''vózinha'', outras famílias receberam a visita do jovem antes do Natal. Além do Jardim União, ele levou cestas básica também ao Jardim Icaraí, igualmente miserável. Os moradores, ou não se lembram, ou recordam vagamente do estudante. Muitos dos moradores sofrem de várias doenças, inclusive mentais. As dores e feridas dessa gente não são metafísicas, mas estão expostas na carne.
É a situação da ex-catadora de papel Maria Zeferina de Jesus, que vive em uma casa que flutua sobre o esgoto, nos fundos da linha do trem, com mais nove pessoas. A senhora anda e se move com dificuldade. Com o dedo, mostra o inchaço das pernas e, sem muita precisão, diz que se lembra do jovem que garantiu um Natal um pouco melhor. É evidente que não se lembra.
O mesmo acontece com outros moradores que receberam a cesta básica no dia 23. A miséria e os maus tratos da vida não permitem a recordação. É natural que ninguém se lembre. Osíris era mais um daqueles anônimos que fazem do Brasil um país um pouco melhor. Era para continuar assim, anônimo, mas uma tragédia fez com que ele ficasse conhecido.
Outros
A assistente social Antonina Martins Valente primeiro derrama uma lágrima quando indagada sobre Osíris Del Corso, mas depois se segura. Foi ela quem introduziu o jovem na comunidade - colocou-o em contato com uma realidade que deprime qualquer um: uma realidade áspera, pontiaguda, cheia de arestas. Em Osíris, no entanto, parecia dar força para fazer mais. ''Eu me surpreendia com a vontade dele em ajudar'', revela Antonina.
Além ajuda nas casas que visitavam, Osíris e a namorada, que era envolvida em trabalhos sociais tanto quanto ele, também participavam de ações em instituições. Uma delas é o Recanto Feliz Santa Úrsula, no Uberaba, que cuida, em período integral, de 80 crianças de dois a cinco anos. Para o local, os dois levaram livros infantis e organizaram um passeio das crianças para bibliotecas do Centro. ''Eram jovens envolvidos com nossa realidade carente'', lembra a irmã Marisa Petrikovski.
Já no Clube de Mães Estrelas, que promove cursos, oficinas e eventos junto a comunidade, Osíris e a namorada participavam na organização de festas. No último Dia das Crianças, eles estavam lá, ajudando a fazer e distribuir o bolo que foi servido para 1.500 crianças. ''A mão-de-obra que traziam era muito importante. Parecia pouco, mas a comunidade ficava muito feliz'', lembra Carla de Matos, presidente do projeto.
____________
(Folha de Londrina, fevereiro, 2009)

11 de dez. de 2008

O discreto charme da burguesia
Primeiro a mulher sorri. Tem os dentes alvíssimos, alinhados e hálito de hortelã: masca um chiclete discretamente. Ri, mas não em demasia. Veste pela primeira (e úlitma) vez uma roupa da moda, bem talhada, costurada com fios de ouro. Leva uma taça à boca e a borda do vidro - tão fino que parece papel - fica levemente marcada com o batom quase invisível que retoca os lábios da mulher. As bolhas da champanhe estouram no céu da boca dela. Sorri novamente um sorriso de bonequinha de luxo que será eternizado nas páginas de alguma coluna social. É a doce vida.
A cena acima é, naturalmente, inventada, o que não a torna incomum. Mulheres lindas sorriem aos montes em coquetéis de lançamento, em eventos de moda, em dias sem sol. São sempre sorrisos efêmeros, doces, sem crise, que poderiam passar despercebidos não fosse o olhar atento de um profissional contratado justamente para captar os melhores ângulos, os olhos mais bonitos, as poses mais naturais.
Os fotógrafos que cobrem as melhores festa da sociedade curitibana (toda alta sociedade é igual, dizem) são simpáticos, bem vestidos, sapatos brilhantes, cabelos cortados e barbas bem aparadas. Com o tempo, acabam se tornando um reflexo do mundo que cobrem, só que estão do outro lado e sabem disso. Sempre carregam o equipamento fotográfico a tira colo e algumas vezes têm receio de falar o que pensam verdadeiramente sobre a sociedade. Os nomes mais quentes - aqueles que sempre rendem boas fotos e devem estar nas colunas sociais - muitas vezes não são citados, como se fossem na verdade um dos nomes de Deus.
Pode parecer uma contradição, mas fotógrafos que cobrem a sociedade não têm vida social. Estão sempre correndo entre um evento e outro: no final da manhã na inaguração de uma loja no shopping, no meio da tarde no lançamento de uma coleção de moda de uma conhecida marca, madrugada a dentro no evento de final de ano de uma multinacional.
Namoradas, amigos, aniversário da avó, almoço ao meio dia, corrida na academia. A enumeração fica em segundo plano quando colocada ao lado da lista de quem deve ser fotografado: arquitetos de sucesso, advogados influentes, empresários poderosos, estilistas de destaque, políticos da vez, sobrenomes de peso e as mulheres desses homens. É uma roda viva que começa em um click e termina estampada em alguma coluna social.
"Já fotografei a mesma pessoa em três eventos diferentes no mesmo dia. Em todos, sem a pessoa repetir a roupa", conta Naideron Jr., 26 anos, há quase 10 envolvido com a profissão. Se a mulher citada troca de roupa três vezes por dia, isso acontece porque os eventos existem, as pessoas querem ser vistas e têm onde aparecer. Na outra ponta, há quem registre tudo isso. O mercado é basicamente movimentado por esses pilares.
Com a necessidade do registro, os fotógrafos começam a penetrar no mundo da alta sociedade, onde eventos e festas são tão importantes quanto as reuniões de negócio. Geralmente, os fotógrafos trabalham por conta, em parceria com as assessorias de imprensa contratadas para promover os eventos. O valor é cobrado por hora. "A sociedade curitibana é muito grande, mas as pessoas em evidência são poucas", comenta o fotógrafo Diego Pisante, 27 anos. No meio de tanta gente, é preciso aprender a selecionar quem interessa realmente. E quem interessa tem de se encaixar na equação "fazer um trabalho importante + momento de sucesso + família tradicional = pessoa a ser fotografada", diz Pisante.
"O segredo é descobrir como funciona. Entender como é o estilo de cada colunista, saber montar as fotos, colocar juntas as pessoas importantes. Saber quem é quente de verdade exige muitos anos de mercado", diz Naideron Jr.. Gerson Lima, 46 anos, fotógrafo social em Curitiba há 10 anos, concorda. Só o tempo de fotografia, aliada ao que ele chama de humildade, garante boas imagens e bom relacionamento. "É um mundo de muito glamour. Muitas vezes o fotógrafo acaba achando que faz parte de tudo aquilo, mas não faz. Quem pensa assim, a carreira acaba. Brinco dizendo que somos apenas serviçais", alerta Lima, rindo. E o serviço nesse caso é fazer com que se apareça da melhor forma possível.
Lima diz que é raro quem não queira estampar as páginas de uma coluna. Isso geralmente acontece quando a pessoa é muito rica. "Aparecer é sinônimo de que se faz sucesso", completa o fotógrafo. Talvez essa seja o atrativo que faz muitos se postarem charmosamente em frente às câmeras. Nem que seja um charme discreto.
"Há muita gente bonita e influente. As mulheres são lindas e não se fala sobre problemas. A crise não os atingiu e tudo é uma festa. Resumindo: são artistas do Paraná mas sem serem artistas. Aqui não há artistas...", descreve Lima (não sem uma ponta de uma melancolia reticente), como se fosse ele mesmo F. Scott Fitzgerald retratando em um de seus romances a alta sociedade americana dos loucos anos 20.
Não
Sem um mercado de celebridades, ainda que composto de uma sociedade rica e influente, Curitiba não tem ninguém famoso o suficiente que mereça ser flagrado por um paparazzo. É o que dizem os fotógrafos com quem FOLHA conversou. O merecimento se resume basicamente a artistas - principalmente as estrelas de televisão. Os paranaenses que atingiram tal status já não vivem mais no Estado. Todos estão no eixo São Paulo-Rio, principalmente sob as asas da Rede Globo.
"Curitiba não tem um mercado para paparazzo. Aqui, quem faz isso, tem o nome desvalorizado", acredita Diego Pisante. As fotos de celebridades em terras paranaenses passam longe dos flagrantes e ficam restritas a presença de famosos em eventos ou desfiles de moda. "Paparazzo fica queimado", dispara logo Gerson Lima, que define seu trabalho como "fotojornalismo social".
Naideron Jr. diz que os registros que faz das pessoas são no "bom sentido" e que nunca ficaria seguindo uma pessoa por flagrante indiscreto. "Tento ser o mais diplomata possível ao fazer uma foto", diz ele.
Se os paparazzi (ou, numa visão mais abrangente, os fotógrafos do mundo social) registram a fatia mais doce da vida dos ricos, poderosos e famosos, a inspiração para o uso da palavra italiana para designar esse tipo de profissional vem de um dos filmes do cineasta neo-realista italiano Frederico Fellini. Em "A Doce Vida" (1960), Fellini retratou a história de um jornalista vivido por Marcello Mastroiani, que trabalha acompanhado do fotógrafo Signore Paparazzo. O nome do fotógrafo teria sido escolhido pelo diretor inspirado em um mosquito da Sicília - o paparaceo.
Hoje, o termo paparazzo (paparazzi, no plural) é usado para se referir à fotógrafos que vivem em busca de flagrar momentos indiscretos de pessoas públicas como artistas, políticos, atletas, entre outros. Um flagra realmente quente pode valer muito dinheiro. "Só fazem isso por dinheiro", opina Naideron. "Como fotógrafo do social não se fica rico, mas dá para pagar as contas", completa Lima.
______________
(Folha de Londrina, dezembro, 2008)

20 de nov. de 2008

Crime e castigo
A história é longa. Entre 1912 e 1916, rebeldes travaram uma dura batalha contra os governos do Paraná e, principalmente, de Santa Catarina. Marcada pelo caráter messiânico de "guerra santa", o conflito ficou conhecido com Guerra do Contestado. O último dos rebeldes a resistir foi o único entre os líderes que enfrentou a prisão. Chamava-se Deodato Manuel Ramos, mais conhecido pela alcunha de Adeodato. Ele foi preso em agosto de 1916. Morreu anos depois.
Sua morte, porém, quase foi antecipada. Encarcerado em Santa Catarina, Adeodato topou em um dia qualquer com Bruno Vicente Haendechen, que apunhalou o revolucionário no peito, deixando-o em estado grave. A notícia do crime foi publicada até em jornais paranaenses da época. Bruno estava preso por homicídio. Não era sua primeira passagem.
Em 1914, o marinheiro Bruno Vicente Haendechen tinha 23 anos. Era catarinense, branco, solteiro, católico e sem instrução. Condenado por roubo no dia 23 de setembro do mesmo ano por um juiz de Direito da Comarca de Ponta Grossa, tornou-se um dos encarcerados da primeira penitenciária do Paraná no dia 5 de dezembro. O marinheiro, quando esteve preso no Estado, entrou com 66 quilos para cumprir dois anos e nove meses de prisão. Saiu com 59.
Aparentemente banal, a vida desse tal marinheiro cruzou-se com a de uma personagem histórica em algum ponto perdido no tempo. Era, provavelmente, um bandido qualquer que, depois, se tornou assassino. Sua história é só mais uma entre a de milhares de homens que cumpriram e outros mais de 13 mil que atualmente cumprem pena no sistema penitenciário do Paraná. Se hoje um preso está, por exemplo, esquecido pela sociedade no Complexo Penitenciário de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ao menos parte da história do marinheiro Bruno, 59 quilos, catarinense, branco, solteiro, católico e sem instrução, está sendo recuperada.
Não deixar que histórias como a deste homem se percam é a intenção da exposição "Regulamento da Penitenciária do Estado", organizada pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Seju) e pelo Departamento Penitenciário do Estado (Depen) e que está em cartaz no Museu Paranaense até fevereiro de 2009. A exposição relembra os 100 anos da criação da primeira penintenciária do Paraná, em 1908, batizada de Penitenciária do Estado.
Regulamentada pelo decreto número 564, de 23 de setembro daquele ano, o local só recebeu seu primeiro preso em 1909. Começou a funcionar onde era o Hospital Nossa Senhora da Luz, que na época tratava os considerados "doentes mentais". A Penitenciária do Estado funcionou até 2006, já como Penitenciária do Ahú.
Entre sua criação e desativação, o local recebeu muitos "Brunos" e passou por diversas modificações. A principal destacada por Feles Russi Filho e Carlos Alberto Pereira, agentes penitenciários do Depen que fizeram a pesquisa que resultou na exposição, está no modo de tratamento dos presos. "A grande diferença é na questão dos direitos humanos. Hoje, os presos são tratados como homens. Há uma tentativa de recuperá-los", diz Pereira.
A criação da primeira penitenciária já representou um avanço em relação às cadeias anteriores. Antes de 1909, as grades eram de ferro fundido, cruzando barras verticais e horizontais. Pareciam masmorras. "A Penitenciária do Estado modernizou a idéia de cadeia, que era arcaica, medieval. Além disso, passou a tratar o preso como criminoso que devia cumprir uma pena. Ninguém era preso sem ter crime ou por que tinha cara de bandido", conta Pereira.
Mesmo com as condições melhorando ao longo do tempo, um problema persiste há 100 anos no Paraná: a crise de superlotação no sistema. A primeira penitenciária tinha lugar para 60 presos. Nas primeiras transferências, 56 vagas foram ocupadas logo de cara. Cem anos depois, o sistema penitenciário do Paraná continua trabalhando em seu limite.
Com 25 unidades, o Paraná tinha, em 23 de outubro deste ano, 13.643 presos em todo o Estado. As vagas disponíveis são 13.663 (ainda não contabilizadas as 900 recentemente abertas no Centro de Detenção e Ressocialização de Foz do Iguaçu). As restantes não suprem a demanda de presos condenados que cumprem penas em cadeias. "A gente sabe que se hoje fossem inaugurados dez presídios, todas as vagas seriam ocupadas. Nisso não mudou muito", acredita Feles.
Abandono
''Não podemos deixar esse material na obscuridade'', diz Feles Russi Filho, agente do Depen e presidente da comissão ''Resgatando nossa História'', que organizou a exposição sobre a criação da primeira penitenciária do Paraná. Ele se refere ao estado em que os documentos que guardam muito desse passado estavam. Abandonados nos arquivos do Depen, Feles temia a hora em que muitos deles fossem parar no lixo.
''A qualquer momento, alguém poderia achar que eram papéis sem importância e jogar no fogo'', diz. No material, mais de 80 livros com registros do primeiros presos do Paraná e centenas de prontuários com a história dessa parcela da população. ''Até hoje, esse material não recebeu um tratamento adequado'', critica Feles. De acordo com presidente da comissão, que é pós-graduado em História do Paraná, os documentos não estão disponíveis para um possível estudo acadêmico. Por isso, o uso do termo ''obscuridade''.
Para tirar o assunto um pouco das ''trevas'', Feles diz que a intenção da comissão para o futuro é a criação de um museu contando a história das penitenciárias do Paraná. ''Temos uma preocupação em criar um espaço para guardar esse material'', diz, afirmando que as pessoas devem ter acesso aos documentos. ''É uma forma de resgatar o orgulho de trabalhar no sistema penitenciário. Para a sociedade, os agentes são um monte de lixo cuidando de outro monte de lixo, que são os presos'', emenda Carlos Pereira, também membro da comissão.
__________
(Folha de Londrina, novembro, 2008)

4 de nov. de 2008

Citação (1)
"Assim, Köves passou a viver a tortura de uma eterna e incessante insegurança: praticamente todos os dias ele produzia um ou outro texto, ora mais longo, ora mais curto, que, do ponto de vista estilístico e hermético, aparentemente pleno de sentido, procurava, na medida do possível, adaptar ao modelo fornecido pelo redator-chefe, ou seja, corrigia e reescrevia até que finalmente nem ele próprio o entendia, porque, enquanto entendia, podia ver que o texto não tinha nenhum sentido, conseqüentemente não podia ser bom; para ser mais exato, não poderia corresponder à sua finalidade, da qual, naturalmente – e talvez aqui estivesse a raiz do problema –, o próprio Köves não esta muito ciente; porém, quando os textos ficavam prontos, Köves não conseguia definir se no final das contas eles eram funcionais, porque já não os entendia, e menos ainda a que propósito eles serviam". (pág. 270)
_____________________
Imre Kertész, em "O fiasco"

2 de nov. de 2008

Versos a um coveiro
Longe de ser seus melhores poemas, ainda assim o soturno poeta Augusto dos Anjos dedicou dois sonetos exclusivamente à figura do coveiro. Em antologias, os poemas ''Versos a um coveiro'' e ''O coveiro'' são classificados como menores dentro de sua obra. Se fosse contemporâneo aos nossos dias, Augusto dos Anjos não teria dedicado seu tempo a eles, também citados em outros versos do autor. O motivo é simples: a profissão está deixando de existir - ao menos com este nome. Quem afirma são os próprios profissionais.
Hoje, Dia de Finados, cerca de 100 mil pessoas são esperadas nos 22 cemitérios de Curitiba. Toda essa gente só vai estar lá mesmo de passagem. Mas quem ''vive'' mesmo em cemitérios são os coveiros... Ops!
Embora passem os dias em cemitérios, mesmo realizando enterros e exumações, os funcionários da morte já não se sentem mais à vontade ao serem chamados de coveiros. Hoje, preferem ser chamados de pedreiros. ''Coveiro é quem faz cova, cavada direto na terra. Nós não fazemos mais. Agora são gavetas, feitas com tijolos e placas de cimento'', defende Ismael Stella, funcionário do cemitério Nova Orleans, em Curitiba.
Ismael está nessa profissão há 30 anos. Começou como coveiro e vai terminar a vida como pedreiro, diz ele, que na labuta diária não teme mais nada, nem a morte. ''Não tenho medo. Como ter medo de algo que é natural para todo mundo?'', pergunta. Ismael relembra as covas que fazia até quatro anos atrás, mais estreitas e fundas que hoje. Sim, mediam sete palmos, confirma ele. ''Hoje, as gavetas são mais rasas e largas, para caber os caixões. Ou, então, é tudo construído para cima, como urnas'', conta Ismael, que divide o trabalho com outros cinco pedreiros.
Antônio Rezende Terras tem 61 anos e há 30 trabalha em cemitérios. Ele e os colegas concordam com o fim da profissão. ''Muita gente ainda chama a gente de coveiro, mas somos pedreiros. Trabalhamos mais com tijolo, massa, cimento. A cova na terra não existe mais'', argumenta ele, que trabalha ao lado de outros 14 pedreiros no Cemitério do Água Verde, também em Curitiba.
A morte do coveiro como profissão aconteceu em 2004. O fim das covas feitas direto na terra seguem uma resolução estadual daquele ano, criada com o objetivo de definir critérios de controle ambiental das áreas dos cemitérios. De acordo com Josiana Koch, diretora do Departamento de Pesquisa e Monitoramento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o controle do impacto ambiental dos cemitérios se dá principalmente em relação ao lençol freático. Este pode ser contaminado pela decomposição dos corpos.
De acordo com Josiana, a legislação não entra no mérito de como os enterros devem ser realizados - se direto na terra ou não -, mas a resolução determina que os corpos devem estar a pelo menos 1,5 metro do lençol freático. ''A legislação só cita medidas de isolamento do cadáver para não haver contaminação'', explica. Ainda assim, Josiana diz que as gavetas de alvenaria são, de fato, mais seguras para o meio ambiente. O mesmo pode ser dito dos cemitérios verticais, que não correm o risco de poluir a água. Sem terra, sem cova, agora coveiro é apenas personagem de poema...
_________
(Folha de Londrina, novembro de 2008)

29 de out. de 2008

João
Na vida, no geral, poucas coisas são de se orgulhar. Uma das que orgulham a mim mesmo e que me alegram quando relembro – com uma ponta de fantasia até – foi o fato de ter podido ver João Gilberto cantar. Tê-lo visto se apresentar, da terceira fila do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, foi como ganhar um prêmio. Só que maior. Saber que vi João tocar e cantar me alegra de tal forma que posso enumerar outras poucas que me despertam tal sentimento: um dia de sol, um pouco de amor, coisas bonitas.
Imediatamente após os shows que fez em São Paulo em agosto último, os primeiros no Brasil depois de cinco anos sem subir aos palcos de sua terra, já é notório e importante dizer “Eu vi João Gilberto cantar” como um fato histórico. Este show, como qualquer outro de João, já um clássico (para as pessoas que o viram cantar). É tão importante dizer isso como dizer que se viu os Beatles cantarem (com a diferença de que os Beatles fazem, vá lá, arte; João faz MÚSICA). Só quem viu – ou quem o ouve em disco com o coração ardente pela beleza de seu canto – sabe o que digo. Confesso que quando digo a frase “Eu vi João Gilberto cantar” me pego assombrado com sua força e como o que tem de irreal. Nunca poderia que isso pudesse me ocorrer.
Quando se confirmaram as apresentações de João no Brasil, a expectativa se formou – não só em mim. Nas semanas que envolveram seus shows, o Brasil respirou um ''clima João Gilberto está entre nós'' (como se nunca estivesse estado). O anuncio foi o suficiente para sua presença ecoar em discussões que foram desde sites de relacionamento, páginas de jornais sérios e revistas de coluna social. O show começou bem antes de João subir ao palco. Em mim, o mesmo rebuliço. Em meus registros, quando anunciado locais, datas e valores das apresentações, escrevi: “Nos próximos trinta dias só uma coisa importa: João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira”. Era sete de julho de 2008. Uma semana depois, li uma frase de Caetano Veloso (publicada no jornal Folha de S. Paulo) sobre João: "Seu canto transforma e revela cada canção de que se aproxima. Eu tinha 17 anos quando ouvi tudo isso pela primeira vez. Agora, meu filho de 16 me pede para que eu o assegure de que ele poderá ver João Gilberto cantar. Não pode haver nada que me faça mais feliz". Uma afirmação dessa natureza – tão bonita também – nos faz também querer conhecer de perto esse canto. Era necessário que eu assegurasse a mim mesmo o direito de poder ver João.
Depois, veio o que todos puderam acompanhar pelas páginas de jornal. Confusão na venda dos ingressos, reclamações de quem não conseguiu comprar, acompanhamento massivo da imprensa, expectativa depois de cinco anos sem shows de João no Brasil, discussão sobre se ele apareceria mesmo; se reclamaria ou não. Eis que deu tudo certo (pelo menos para mim e para os que foram comigo ao concerto; o aparente egoísmo de minha afirmação contém na verdade o gosto do júbilo de ter conseguido as entradas).
Tocou dois dias em São Paulo e uma no Rio de Janeiro (até o fechamento desta edição de ZAZ, há mais uma apresentação marcada para Salvador, na Bahia). No primeiro show em São Paulo, atraso de mais de uma hora e meia. O bis gordo acalmou o público. No segundo – o que assisti com expectativa e êxtase – mais atraso. Nada que prejudicou. João entra o palco nu empunhando seu companheiro. É velhinho; tem um fio de voz e dedos que bailam no braço do violão como formigas sobre um prato de doce. Não precisa de mais nada: banda, pose, cenografia. Seis cordas e uma voz mínima bastam. Impressionante. A apresentação foi impecável, digna de quem há 50 anos reinventou a música brasileira. Diante de pouco mais de 800 pessoas, estava o homem que inventou a bossa nova. Não é para me orgulhar de ter podido estar entre eles?
Ver João cantar e tocar seu violão deveria ser uma experiência pela qual todos nós deveríamos passar. Como escreveu o biógrafo da bossa nova Ruy Castro, todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. A João, também deveria ser este um direito assegurado – (se em um País com muitas coisas feias como o Brasil ele inventou a bossa, a afirmação não é tão utópica assim). O senhor de 77 anos tido como implicante e excêntrico nos faz lembrar o que o Brasil tem de melhor. Sem nacionalismos, sem verde-amarelismos, dá uma ponta de orgulho de saber de tudo isso.
Bem-humorado, relembra os comentários do show do dia anterior, que falavam de seu atraso. Diz que depois disso, nem comeu direito naquele dia. Saíra correndo do hotel engolindo alguma coisa que nem chegava a ser um jantar. Tudo para não se atrasar para o segundo concerto. Ele diz isso sério. Depois ri. A platéia, que quer qualquer coisa do gênio, ri junto, nervosa. ''Tem gente que perde o amigo, mas não a notícia'', diz João e faz uma careta. Risos e aplausos. João sorri novamente. Muitos não entenderam e publicaram que ele estava de mau humor. Falta de presença de espírito desses outros.
Quando vêm os primeiros acordes, silêncio e tensão. Qualquer movimento em falso do pé ou uma respiração mais forte podem atrapalhar o homem. Eu só me mexia entre canção e outra. Respirava mais baixo que o canto de João, quase que aprendendo algum tipo de respiração de Yoga – temo atingir o Nirvana a qualquer momento da apresentação.
Realmente João canta e toca baixinho, mas nesse violão parece que traz a síntese da bateria de uma escola de samba. E quando toca, desfila clássicos na avenida que são nossos ouvidos. Ele toca as músicas que todos conhecemos, mas que não podemos cantar para não atrapalhar o mestre. Quase não dá vontade de cantar, aliás. O prazer é ouvir – o que coloca nos eixos a relação entre público e artista, subvertida por grandes espetáculos e pouca música (e o que não é de todo mal em alguns casos). Toca ''Wave'', ''Corcovado'', ''O pato'', (''Chega de Saudade'' ao vivo é linda), ''Estate'' – não me lembro. Quero ouvir; quero esquecer que tenho que escrever este texto; quero apenas eu e João como se estivéssemos sós na sala de sua casa.
Hora ou outra, João até fala. Diz que ama São Paulo cantando a música ''É o amor'', de Zezé de Camargo e Luciano. A platéia parece não acreditar. Mas aconteceu. Cariocas (e baianos – será que ele foi?) também puderam ver o show de João. No final do ano fará alguns concertos no Japão (para quem dedicou uma composição inédita na apresentação de São Paulo). Depois disso, é o fim de sua turnê neste ano. Será que volta logo? Tomara que sim. Farei de tudo para estar lá novamente. Espero que você faça o mesmo.

P.S.: Desculpem-me os detratores, mas de quem mais se pode dizer tudo isso o que foi dito aqui? Como diz o poema de Gonçalves Dias: “Meninos, eu vi!”.
______________
(Revista ZAZ - novembro de 2008)

14 de out. de 2008

Guerra e Paz
Em ''Risíveis Amores'', Kundera escreve algo mais ou menos assim, sobre uma de suas personagens: para esta, no amor, o flerte é o mais importante que o fato consumado. A personagem faz da ''... abordagem um exercício de virtuosismo considerado como um fim em si e, muitas vezes, não ir mais adiante. É por isso que ele se compara, não sem certa amargura, ao generoso atacante que dá bons passes para um companheiro de equipe, fazendo-o assim marcar gols fáceis e colher glórias sem grande esforço'', escreve. O que o escritor quer dizer é que muitas vezes o jogo da consquista vale mais que a finalização.
Menos literária, mas com o mesmo fio de pensamento de Kundera, há a piada entre os ''pegadores'' de plantão de que no amor, o que vale é pontuar - somar três pontos ao final. A vitória, no caso, não é baseada no número de gols, e sim na quantidade de conquistas, beijos e, quem sabe, algo a mais.
Por fim, há quem defenda que no futebol, o drible (ou um passe bem dado) é mais bonito que o gol. Se o gol é o amor consumado, o drible que deixa o zagueiro tonto é o flerte. Dessa forma, o balé sem classe de ataque e defesa do futebol pode ser comparado - até a náusea e o lugar-comum - com a dança da azaração entre homem e mulher.
O futebol, assim como a conquista, é o terreno da imprevisibilidade. Enquanto os jogadores de Coritiba e Atlético Paranaense duelavam no último domingo no Estádio Couto Pereira, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, homens e mulheres dividiam suas atenções entre o jogo e uns aos outros. Entre um lance e outro no campo, o flerte é o drible que acontece na arquibancada. Quase imperceptível, no meio da multidão que grita apaixonada, futuros casais vão surgindo. Casais efêmeros, é verdade, mas, ainda assim, casais.
Com mais mulheres frequentando estádios de futebol, a azaração que antes era restrita à festas e baladas, ganhou um novo terreno. Em um estádio, a geral é o campo onde o duelo da conquista acontece. ''Na geral rola muita paquera, pegação. Hoje estou casado, mas já peguei muita mulher aqui'', confidencia o torcedor Éder Sussolin, de 27 anos. A democracia da geral prevalece o surgimento da parquera. ''Na geral todo mundo é igual. Aqui você não precisa de carro ou roupa de marca para pegar mulher. Agora, em outro setores, como as cadeiras, a social, ninguém pega ninguém'', diz.
Com a experiência que diz ter, Sussolin afirma que dentro do estádio é até mais fácil para paquerar do que fora. ''O bom é que aqui você marca para ficar com ela depois'', conta ele e completa, enfático: ''Aqui no estádio, a mulherada vem para pegar. Pode ser feia, bonita, magra, gorda. Todas vêm para pegar''.
Em outro ponto do Couto Pereira, Marcel Oliveira despista, com um grossa aliança no dedo: ''Nunca peguei ninguém, mas tem muita mulher bonita no estádio''. Na visão dele, mulher vai ao futebol para ''interagir''. Completa o vago verbo explicando que enquanto umas querem realmente ver o jogo, outras ''querem caçar''.
Quando escuta a palavra ''caçar'', a torcedora Bruna Lucinda entra na conversa. ''Mulher não vem para caçar, não. Vem para ver o jogo. Quem fala isso é machista!'', dispara a tocedora, visivelmente enraivecida com a declaração. ''Não tem nada a ver falarem isso. Hoje, o futebol é coisa de família'', diz. Marcel contorna a declaração negando o que havia deixado no ar e tenta engatar um papo com Bruna. Ah, esses homens...
Maiores envolvidas no assunto, mulheres têm visões diferenciadas sobre o tema. A recepcionista Joyce Veiga, de 19 anos, observa, mesmo com o namorado a tira cola, que em um estádio de futebol existe ''bastante homem ''. Para ela, mulher vai ao estádio com três finalidades: ou para acompanhar marido e namorado (o caso dela), ou para assistir o jogo, ou para ver homem. Já seu namorado, o assistente administrativo Rodrigo Dei-Tos, de 23 anos, acha que o maior atrativo para elas é o futebol. ''Mulher não vem para paquerar, não, vem para ver o time'', podera. ''Se eu estivesse solteira, continuaria a vir'', diz Joyce, que passou a frequentar estádio com o início do namoro. Ah, essas mulheres...
Já para a balconista Franciele Cruz, de 27 anos, o estádio é o local para incentivar seu time do coração. Quando afirmam que mulher vai ao futebol apenas para paquerar, ela diz não estar nem aí. ''Acho que a declaração não é machista. Quem vem para ver o jogo mesmo, não liga para isso'', diz ela, mais calma na guerra (ou na paz) dos sexos e da bola. Em processo inverso a maioria, foi Franciele quem trouxe o marido para o jogo.
Um estádio de futebol é o lugar onde tudo acontece, onde o imaginável é possível. Até namoro entre atleticanos e coxa-brancas, provando que no amor e na guerra, tudo é válido. As torcedoras do Coritiba que foram ao estádio largaram os namorados em casa. É o caso da estagiária Bruna Ribas Machado, de 17 anos. ''Ele está vendo o jogo em casa'', revela. Para ela, que frenquetava partidas de futebol antes de namorar um atleticano, ficar com alguém dentro do estádio é impensável - ainda mais torcendo para o time rival do namorado. ''Adoro futebol. Venho pelo jogo'', completa.
A situação da administradora Daiane Kelen Sousa, de 23 anos, é semelhante: ela também deixara o namorado atleticano em casa. Fã de futebol, ela diz que nunca rolou nada com ninguém no estádio. ''Mesmo quando não namorava, nunca aconteceu. Sempre venho com os amigos'', conta. Para Daiane, há uma divisão quando o assunto é a intenção das mulheres que vão ao estádio. ''Acho que 50% vem para ver o jogo. A outra metade vem para parquerar, passear ou acompanhar o marido ou namorado'', acredita.
Entre todas a mulheres entrevistadas por este repórter, apenas uma admitiu que, sim, já ficara com alguém em um estádio de futebol. A estudante Caroline Paulini, de 17 anos, diz que já rolou algo ''com uma pessoa''. Não entrou em detalhes, mas diz que a conquista no estádio é possível, principalmente na geral.
Caroline é a prova de que, no campo da conquista, vencem todos. Já no manto verde do campo, Coxa e Atlético não passaram de um melancólico empate. Ninguém pegou ninguém: os dois morreram abraçados.
___________
(Folha de Londrina - setembro, 2008)

24 de set. de 2008

Respiro
É lógico que não se chega ao auto-conhecimento em quatro horas, mas esse tempo basta para descobrir o quanto não se conhece o próprio corpo. Esse espaço de tempo é suficiente para se ter a confirmação de como é frágil o conjunto de pele, carne, ossos, sangue, células, órgãos que unidos formam o corpo humano, onde a vida é misteriosamente abrigada.

Como a rotina de nosso cotidiano, o corpo também reage se qualquer hábito ao qual está acostumado é mudado. Reage até mesmo se esta mudança for em algo tão comum quanto respirar. No último sábado, esteve em Curitiba o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos. Ele ministrou um curso intensivo sobre respiração e meditação.

Penso que poderia conversar com ele sobre a importância da respiração para a vida e sugiro a pauta. Ao entrar em contato com a escola em que Santos estaria, ele convida este repórter para participar do curso de respiração. Aceito. Preparo-me com dois pensamentos: me abrir ao máximo possível para os ensinamentos e retirar da minha mente todo preconceito e ignorância. Imagino que os efeitos do curso só seriam possíveis se eu vencesse a barreira que existe entre mim e qualquer ensinamento vertical; que o curso só seria válido se eu me desnudasse de qualquer julgamento prévio e me entregasse àquilo com a mesma paixão de quem se dá ao amor.

Sou recebido na escola de yôga com beijos e cumprimentos de todos. Entro na sala toda azul e, mesmo com toda hospitalidade dos outros 12 alunos, sinto-me um organismo estranho e ignorante. Todo meu pensamento anterior sobre entrega fica abalado. No início da aula, fazemos o Pújá, espécie de cumprimento e agradecimento prévio pelo o que será ensinado a seguir. Fechamos os olhos pela primeira vez. Sinto-me observado, mesmo com os olhos de todos os outros cerrados. Ver novamente a luz é um alívio.

Descubro que o método Swásthya, o mais completo de todos os métodos de yôga que existem, é dividido em oito conceitos de ensinamento e que, durante aquelas quatro aulas de curso intensivo, vamos nos ater justamente ao quarto preceito: o Pránáyama. Em sânscrito, Pránáyama quer dizer ''expansão da energia vital por meio da respiração''. Até o momento, meu corpo permanecia igual, como eu o conhecera anteriomente.

Começamos respirando com uma técnica de limpeza das narinas, o Kapalabhati. A técnica consiste em expirar rapidamente, como fazemos quando estamos gripados e sopramos o ar pelo nariz para expelir secreções. Segundo mestre Sérgio Santos, o Kapalabhati faz com que os poros do pulmão se expandam, recebendo mais ar e estimulando os neurônios. A técnica é indicada para ser feita pela manhã, em um ritual de limpeza que também serve para estimular o cérebro. Mesmo com os benefícios anunciados, fazer o Kapalabhati foi constrangedor. Eu estava resfriado.

Entre um exercício e outro, mestre Sérgio faz também observações sobre a respiração. Diz que ''a respiração sustenta a vida. Ficamos sem comer, dormir, mas não sem respirar''. O comentário é óbvio e por isso mesmo assombrador: nunca percebemos que respiramos. O ato é comum, cotidiano, prosaico, rotineiro, repetitivo. A percepção de sua importância é quase nula. O mestre explica que na Índia, berço do yôga, dizem que quanto mais se respira, menos se vive. ''O tempo de vida é medido pelo número de inspiração e expiração'', comenta. A idéia, que a princípio é contraditória, não é de toda absurda quando o mestre lembra da importância de se respirar com qualidade: sempre pelas narinas e de forma abdominal.

Quando o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos fala sobre os indianos, lembro imediatamente dos velhos samanas do ''Sidarta'', de Hesse. Com belas imagens, combinando a determinação e fúria da personagem principal, Hesse cita a respiração: ''Já sabia pronunciar o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo''. ''Átman'' é traduzido literalmente como ''fôlego''. Representa a energia vital, a personalidade, o eu, a alma e o princípio da vida.

Era isso que eu buscava naquela aula? Talvez. Desse momento em diante, meu corpo, meu pulmão, meus membros, começam a sentir o poder dos exercícios. É o Uddiyana Bandha. Sentados, com as mãos nas pernas, somos estimulados a soltar todo o ar do pulmão e contrair o abdômen. Mestre Sérgio Santos dá um aviso ao qual não me atento: ''Os efeitos terapêuticos do yôga são imediatos''. Não dou bola, ignorante; estou mais preocupado em acertar a forma como se respira.

Mestre Sérgio ensina que a respiração pode ser dividida em quatro partes: baixa, média, alta e completa. Em todas, o diafragma tem papel fundamental, controlando a respiração. Para mostrar a respiração completa, mestre Sérgio se deita no chão e começa. Primeiro infla a barriga, na altura do umbigo, depois na altura das costelas e por fim do peito. Ele começa a se encher de ar de um modo impressionante, como nunca imaginei que pudesse acontecer. Infla feito um balão, como ele mesmo diz, e fico esperando, abismado, o momento em que irá flutuar. Seu corpo ficar enorme.

Somos estimulados a fazer o mesmo. Tento. Primeiro acerto, depois erro. Assim sigo todos os exercícios, em uma luta contra minha inexperiência e incapacidade de dominar meu próprio corpo, minha própria respiração. Penso que a ignorância é algo monstruoso. Depois de respirar por alguns minutos a respiração completa, sento-me. Sinto uma leve pressão na cabeça, algo que se parece com uma dor mas que não pode receber este nome. É como se não houvesse ar na minha cabeça e ela estivesse vazia (agora, relendo essa anotação, rio-me da metáfora que escrevi logo depois do exercício: ''... como se não houvesse ar na cabeça''). Posso chamar de dor o que sinto no abdômen e no peito. Meu pulmão, porém, sinto-o um pouco mais limpo.

Mestre Sérgio diz que a respiração baixa, feita com a barriga, é a mais importante de ser realizada em momentos de tensão, funcionando quase como um calmante. Quase não ouço - atitude que reconheço como ignorante, negando tudo o que me propus no início da aula. Estou mais interessado na percepção de meu corpo. Sinto partes que sabia que existiam, mas nunca tinha me atentado. A constatação de que não conheço partes do meu físico me amedrontam ao mesmo tempo que fascinam.

Já me sinto cansado, não de tédio, mas como se tivesse feito exercício físico, feito uma corrida. Os outros alunos estão corados e sem os agasalhos do início do curso. O próximo passo é aprender as fases da respiração e de que forma o prender e soltar do ar pode influenciar no cotidiano. Mestre Sérgio diz que quando o tempo de inspiração é maior que o de expiração, o resultado é estimulante. Do contrário, o resultado é sedante. ''O controle dessa prática deve ser colocada em prática conforme a necessidade do dia'', ensina.

Enquanto memorizo isso, me debato para conseguir executar a respiração no tempo certo. Percebo como é difícil controlar o corpo, a mente e outras coisas que parecem depender apenas do nosso querer. Já não sei o que é mente e o que é corpo; desconheço sobre o que tenho domínio e o que não tenho. Na técnica chamada de Bhástriká - hiper-oxigenação do pulmão por meio da respiração curta e rápida - me debato em silêncio para conseguir realizar o exercício. Não consigo combinar a inspiração e expiração ligeira com o movimento do diafragma. É como se o ar não chegasse, como se pulasse meu pulmão, indo das narinas direto para algum lugar no diafragma. Meu desconhecimento de fisiologia humana não me permite afirmar se isso é possível, mas a sensação foi essa: em poesia tudo é possível.

De tanto respirar, sinto que meu pulmão começa a queimar. A queimação sobe para a garganta, que parece agora em constante nó. Engulo seco. O ar pára na minha goela e o pulmão parece que vai explodir. Sou vencido por uma sensação de sufocamento. Pela descrição, parece algo claustrofóbico; pelo contrário, a sensação é de limpeza e descoberta. E um pouco de leveza.

A terceira etapa do curso combina respiração e meditação. Para mim, até então sem contato algum com o yôga, é o momento mais difícil. A chamada mentalização, em que mestre Sérgio pede para que os discípulos imaginem a energia irradiando do corpo, parece-me inconcebível, devido ao meu poder de concentração baixo. Não consigo imaginar, como pede que mentalize o mestre, feixes de luz em pontos de meu corpo, subindo pela minha coluna e chegando ao alto de minha cabeça. Não consigo conciliar essa idéia com o fato de que tenho de respirar direito.

No ápice de todo o curso, meu corpo já não me responde. A concentração foge de minha mente como um gás escapa por uma fresta. De todo modo, tento manter a posição ereta de minha coluna e respirar no ritmo certo. Mais uma vez, a concentração necessária para isso me foge, vai escapando junto com o ar que expiro. Abro os olhos e observo os companheiros de curso - já não me são mais estranhos. Olho-os. Estão sentados de olhos fechados. São, visivelmente, mais evoluídos que eu. Em suas faces tranqüilas, quase sem expressão, há a representação de tudo o que não consegui. De certa forma, contra minha vontade, invejo-os.

Novamente, ao observar seus rostos, recordo-me do livro de Hesse, a quem recorro novamente: ''... percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos''.

Aos poucos vão despertando, quando o curso acaba. Meus companheiros têm semblantes plácidos. São calmos e felizes. Eu não. Eu terminei o curso com a sensação de falta de ar, mesmo que o ar não me faltasse. Tive a certeza também da minha ignorância em relação a meu próprio corpo: me conheço muito menos do que pensava. Tenho certeza de que essa consciência é boa.
________________
(Folha de Londrina - Setembro, 2008)

19 de set. de 2008

Fuga
Na sala da casa de Nariman Osman Chiah, de 21 anos, ainda há uma foto de seu casamento. No retrato, ela está sozinha, vestida de noiva, muito jovem e toda maquiada. Agora, o casamento com Ahmed Holeihel é só lembranças. A união que durou sete anos acabou de vez ontem, exatamente às 10h42, quando ela desembarcou no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O longo trajeto entre a fuga das agressões do marido no Líbano até a chegada ao lar do pais, em Matinhos, Litoral paranaense, durou mais de dois meses - entre a decisão de partir e o desembarque no Brasil.
A fuga de Nariman, com seu filho de seis anos a tira colo e grávida de cinco meses de uma menina, transformou-se em caso nacional. O desembarque no Afonso Pena foi carregado da mesma expectativa. Com atraso de quase uma hora no vôo vindo de São Paulo, Nariman desceu em solo paranaense e não segurou a emoção. Ao ver a família e abraçar a mãe, ambas choraram compulsivamente. Não conseguia falar - mas depois confirmou: estava aliviada.
De São José dos Pinhais seguiu para Matinhos, onde vai ficar na casa dos pais. Na cidade, foi recebida com festa, abraços e beijos de amigos e familiares. O rosto cansado denunciava a situação difícil pela qual passou. Em momentou ou outro, porém, sorriu. ''O pior momento da fuga foi a espera. Não sabia quando ia voltar'', disse, com um fio de voz. Também revelou estar assustada com a dimensão que o caso tomou no Brasil. ''Ainda não caiu a ficha''.
A comoção gerada pelo caso é em função das agressões que Nariman diz ter sofrido do marido. Cada vez mais intensas, as agressões motivaram sua fuga. A paranaense se casou com Ahmed no Líbano, aos 14 anos de idade, e depois se mudou para o Brasil. Viveu com ele por quatro anos até que se separaram durante quase dois anos, por causa de brigas constantes. Voltaram a viver juntos e retornaram para o Líbano, onde permaneceu por mais oito meses. Decidiu fugir depois que os problemas com o marido se agravaram.
No Líbano, as agressões que já aconteciam no Brasil se tornaram mais comuns. Ahmed rasgou os documentos de Nariman e passou a agredir também o filho. ''Ele mudou muito, por causa da diferença da cultura do País. Lá é diferente e ele fazia o que não podia fazer aqui'', revelou Nariman, sobre os costumes distintos entre Líbano e Brasil.
Ela disse, e a família confirmou, que agora o sofrimento é passado - assim como a foto do casamento que ainda resiste na estante da sala. ''Ela sofreu bastante e nós também. Ficamos os últimos três dias sem dormir'', contou o pai de Nariman, Osman Fleiman Chiah. Visivelmente emocinada, a mãe, Mahassen Chiah, não desgrudou da filha, entre lágrimas de alegria e beijos afetuosos. Agora pensa na felicidade ao lado da recém chegada.
Ainda com aparelhos nos dentes, apenas 21 anos e esperando o segundo filho - uma menina que vai ganhar o mesmo nome da avó - Nariman sabe que ainda tem a vida pela frente: ''Agora quero ser feliz. Vou tocar minha vida ao lado dos meus pais e de meus filhos''.
_______________
(Folha de Londrina - Setembro/2008)

14 de set. de 2008

Justino e Bismarck
‘’Você queria que o serviço dos Correios chegasse aqui de forma mais eficiente?’’, é a pergunta. A primeira resposta é um sorriso tímido, encabulado, de quem não sabe se tem direito de dizer o que pensa. ‘’Se chegasse direto nas casas, seria melhor, né...’’, responde baixo o jovem, entre os dentes.
O diálogo travado é com Justino Padilha Miranda, 17 anos. Ele cuida, ao lado do irmão, Bismarck, 12, do único contato que cerca de mil famílias do bairro Guaraituba, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), têm com o resto do mundo. No bairro pobre, sem asfalto na maioria das ruas e água encanada em muitas casas, os dois são os responsáveis por uma espécie de agência informal dos Correios. Revezam-se para cuidar da caixa postal comunitária daquela região do bairro. Distribuem as correspondências das 9 às 15 horas sem ganhar nada. O trabalho é voluntário.
O correio oficial só chega até a pequena construção de madeira, onde funciona a sede comunitária. Geralmente, o carteiro vai de carro ou motocicleta e deixa as cartas ali. Depois, cada morador tem de passar no local para pegar suas correspondências.
A ‘’agência’’ informal da localidade do bairro é um puxadinho pequeno, caindo aos pedaços, que ainda resiste em pé em parte de um terreno do pai dos garotos. Nele, chova ou faça sol, a dupla Justino e Bismarck cuida de receber as correspondências, organizá-las e distribuí-las para os moradores daquela região do Guaraituba. O bairro, erguido sobre áreas de mananciais, não poderia existir. Muitos dos terrenos são de invasão. Hoje, mais de 45 mil pessoas vivem na região, famosa pela violência e pela falta de estrutura, como saneamento básico. Além do ponto zelado pelos dois, o Guaraituba - maior área de invasão do Paraná - tem outras sete ‘’agências’’ comunitárias de Correio.
Diariamente, ‘’a gente distribui umas 100, 150’’, contabiliza Bismarck. Falam baixo, os dois meninos. Falam pouco. Sorriem envergonhados por entre as toucas e as roupas de influência hip-hop. Dessa forma, na medida do possível, fazem o trabalho com afinco. ‘’Algumas pessoas reclamam do serviço, mas isso é normal’’, diz o mais novo. ‘’A gente faz isso para ajudar a comunidade’’, emenda o irmão mais velho.
A maioria das correspondências são contas de energia elétrica ou telefone, faturas de banco ou cartas de cobrança. Nisso, a ‘’agência’’ do Guaraituba é como qualquer outra do centro de Curitiba. Os Correios estimam que 95% das correspondências que circulam no País sejam dessa natureza.
No bairro, porém, as faturas raramente chegam na data certa. Quase sempre chegam vencidas. Essa é uma das principais reclamações dos moradores. ‘’Boleto está sempre atrasado. Vem sempre depois que vence a fatura’’, reclama Maximiliano Pereira da Silva, 30, desempregado. ‘’É tanto atraso que eu desanimei de vir pegar. Agora quem vem é minha mãe’’, conta.
A auxiliar de cozinha Maria Eva dos Santos tem de caminhar dez minutos para poder ter acesso a suas cartas ou contas. Nos três anos que mora no bairro, sempre usou o serviço. E elogia: ‘’A gente é bem atendido por eles’’. Ainda assim, diz que seria melhor receber as correspondências em casa, como todo mundo.
O trabalho na comunidade começou em 2001, com o pai de Bismarck e Justino - candidato a vereador que prefere não se identificar. O ponto recebe todos os tipos de correspondência, exceto carteira de motorista. Agora, os moradores se esforçam para edificar uma nova sede para o local. A construção será feita com materiais de doação e não tem previsão de quando ficará pronta. Enquanto isso, vão se virando como podem. Mesmo com atraso e dificuldade, as correspondências vão chegando...

Caos pontual
As caixas postais comunitárias não são exclusividade dos moradores do Guarituba. O que ocorre no bairro é só um exemplo comum a muitas outras localidades. No Paraná, elas existem em 363 locais, somando um total de 50 mil caixinhas divididas por 98 mil famílias. A prática é comum em lugares onde o acesso é difícil, perigoso ou carente de informações. Esse é o caso do bairro em Piraquara: as ruas não têm nomes oficiais, os números são repetidos, descoordenados, caóticos.
Esses empecilhos dificultam o trabalho dos Correios. Mesmo assim, as contas não deveriam chegar vencidas, diz Dorotey Gaudeda, gerente de distribuição dos Correios no Paraná. ''Acontece que muitas faturas são emitidas em cima da data de entrega'', diz. Quando indagado sobre o fato de que em outros locais de Curitiba não há atraso, ele diz que o tratamento entre a população não deve ser diferente. ''O exemplo de Piraquara é pontual'', ameniza.
O gerente de distribuição dos Correios ainda lembra: ''que existem reclamações, existem. Não é um serviço ideal, mas é um serviço''. Segundo Gaudeda, a maioria das pessoas tem acesso aos Correios, mas a qualidade das entregas depende do local onde se vive. ''O conforto depende da situação econômica'', revela.
Os atrasos ocorrem por que os Correios enfrentam problemas para chegar em muitas áreas, explica Gaudeda. Segundo ele, o serviço de caixas postais comunitárias é adotado em locais com problema de infra-estrutura e que não atendem requisitos como ruas com nome, placa de identificação e numeração oficial. Áreas com problemas de segurança pública também não recebem carteiro. É o caso de bairros comandados pelo tráfico de drogas. ''Nesses casos, quem sofre é a população'', diz Gaudeda. Povoados distantes das áreas urbanas, distritos e zonas rurais também têm dificuldades em receber cartas.
No Paraná, circulam uma média de 1,3 milhão de correspondências ao dia, segundo números dos Correios. Desse total, 50% está concentrado em Curitiba e região metropolitana. No Brasil, o número médio é de 35 milhões de cartas, boletos bancários, contas e faturas. Para fazer a distribuição desse montante, existem 55 mil carteiros no País. No Estado, são 3.190.

____________
(Folha de Londrina - Setembro/2008)
Multiplicadores de idéias
"Olha, o que será que é aquilo?’’, apontou espantada a estudante de Nutrição Patrícia Ignácio, 19 anos. Ela conversava com outras duas amigas dentro de um imponente prédio da Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Paraná, onde estuda. O motivo de sua frase é uma tenda armada no meio do pátio da PUC. Em volta da tenda, uma roda de discussão, pessoas fazendo malabares, um grupo de teatro se apresentando e distribuição de preservativos.
A movimentação incomum que tanto espantou Patrícia faz parte de uma caravana da União Nacional dos Estudantes (UNE) que está rodando os 27 estados brasileiros promovendo debates sobre saúde, educação e cultura. Ao todo, serão 41 universidades visitadas, entre públicas e privadas, em mais de 32 mil quilômetros rodados e 277 horas de viagem até o dia 27 de novembro, quando finalmente a caravana desembarca em Brasília, o destino final. Depois de começar a empreitada pelos estados da região Sudeste, Curitiba recebeu ontem os 25 membros da equipe. Hoje, eles seguem para Florianópolis (SC) e depois Porto Algre (RS). Dessa forma, vão rodar o Brasil.
Na sombra de uma árvore da PUC, um grupo de jovens discutia, ontem pela manhã, temas como Lei Seca e descriminalização da maconha - tudo acompanhado pela presença de especialistas da caravana. A primeira mesa redonda começou tímida, com poucos participantes: disputava atenção dos estudantes com os malabares. Emival Dalat, coordenador geral da caravana e diretor de memórias do Movimento Estudantil (ME), tinha a esperança que durante a tarde e no início da noite a coisa esquentasse e que a adesão fosse maior. ‘’O público é pequeno, mas de qualidade. Os poucos que participam são multiplicadores das idéias’’, afirmou.
No Paraná, até o momento acompanhado pela Reportagem, os universitários não haviam aderido em massa as discussões. Patrícia, a estudante lá do início, disse que até participaria, mas naquele dia teria aula durante toda a tarde e o professor iria divulgar as notas de uma avaliação. Na verdade, ela nem sabia que a caravana estaria em sua universidade -foi informada pela reportagem.
Guilherme Fink, 21, estudante de Engenharia de Alimentos, confirmou que também não sabia das atividades, pois nada fora divulgado em sala. Mesmo assim estava ‘’matando’’ aula e participando do debate sobre drogas. ‘’Se essa estrutura que eles propõem é séria, acho que a divulgação do evento também deveria ser séria’’, criticou ele. Ainda assim, disse ser necessária a iniciativa e a participação dos colegas. ‘’É importante a universidade preparar os alunos para as várias situações da vida. Deveria haver mais debates’’, afirmou.
A visita da caravana da UNE às universidades brasileiras abre espaço para a indagação: os jovens estariam interessados em discutir assuntos mais sérios? Para o coodenador geral da caravana, sim. ‘’A receptividade tem sido interessante. Muitos se preocupam em discutir assuntos como Lei Seca, reforma na educação, questões culturais e temas que envolvem sua realidade. Em outros locais, a participação foi grande’’, disse. Guilherme discordou: ‘’a galera está por fora. Ninguém se engaja e quer se envolver’’.
O dia de atividades pela frente ainda poderia mostrar uma realidade diferente. Pela tarde, os universitários teriam atividades culturais como exibições de filmes, oficinas circenses e intervenções artísticas feitas pelo Circuito Universitário de Cultura e Arte (Cuca). Pela noite, a discussão seria sobre os temas principais da caravana da UNE: ‘’Saúde, Educação e Cultura’’. Em debate, o Sistema Único de Saúde (SUS), a reforma universitária e o acesso à cultura.
A caravana da UNE é uma parceria com o Ministério da Saúde. Além dos debates, distribui preservativos, faz alerta contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e realiza testes rápidos de HIV. A intenção é levar a discussão dos temas a 120 mil alunos de Instituições de Ensino Superior.
_____________
(Folha de Londrina - setembro/2008)

11 de set. de 2008

Acossado
Conceituado, o jornalista da Rede Globo Caco Barcellos, que esteve em Maringá na segunda-feira para falar na X Semana Integrada de Estudos de Comunicação da Faculdades Maringá (Siecom), é cauteloso ao emitir opiniões sem fundamento sobre os assuntos disparados em perguntas de profissionais e estudantes durante entrevista coletiva dada à imprensa. Tem fala mansa, mas firme. E parece cansado.
A Record News, os desafios da profissão de repórter investigativo, fórmulas de como se fazer uma boa reportagem, o trabalho na televisão, a cobertura de casos de corrupção: é possível enumerar por muito o sem-número de assuntos que Barcellos tem de responder. Parece pouco à vontade, mais no papel de celebridade que no de jornalista. Talvez quisesse estar do outro lado, que é onde ele desempenha com êxito seu papel. “Não há fórmulas para ser jornalista. Não há fórmulas na reportagem. Essa é a coisa mais fascinante: o exercício da curiosidade”, diz o homem que há pouco afirmara que não sabia avaliar o impacto sobre a Globo do canal de notícias 24 horas da Rede Record. “Não entendo nada além de fazer reportagem”, encerra o assunto.
Passa ao próximo. Continua a mesma calma. Como fazer bom Jornalismo? Para Barcellos, isso tem a ver com tratar as coisas com profundidades, ir além da superfície, é descer até o fundo. E no caso dele, escritor premiado (dois de seus livros, “Rota 66” e “Abusado” venceram o Prêmio Jabuti, o mais importante das letras nacionais), jornalista consagrado (em uma das perguntas na coletiva, alguém lembra de elogios rasgados do também jornalista Paulo Henrique Amorim), profundidade não é cair no que chama de “onda denuncista” que assola o País. Não basta denunciar, é preciso saber do que se fala; é preciso apurar os lados com o mesmo valor.
“Às vezes, não tomamos o devido cuidado. É fácil criticar. Mas será que estamos fazendo a denuncia com competência?”, pergunta, já revelando os meios que o tornaram o repórter que é. Além disso, é preciso “preocupação com o equilíbrio”, acredita. E torna a dizer: “executar com profundidade no exercício da profissão”. Repete as palavras “profundidade” e “equilíbrio”, usando sinônimos, como mantras.
Sobre seu atual trabalho, o quadro “Profissão Repórter”, exibido dentro do programa dominical “Fantástico”, diz que era um desejo antigo, mostrando ao telespectador as formas de produção da notícia. Trabalhando com jovens repórteres, Barcellos procura histórias que possam ser contadas no momento em que elas acontecem, dando a chance a quem assiste à reportagem de saber informações que só jornalistas – aqueles que vêem primeiro o fato, diz – normalmente têm. Barcellos conta que trabalha com os melhores repórteres, já que a emissora em que está é mais que visada. “São oito mil candidatos para 30 vagas”. Só depois vem a lembrança de que “Profissão: Repórter” é o título de um filme de Michelangelo Antonioni (1975), em que Jack Nicholson vive um repórter que se envolve com traficante de armas. Um mundo muito próximo do de Caco Barcellos: o da violência.
É o que se vê no livro “Rota 66”, em que ele investigou durante oito anos a polícia que mata em São Paulo. As ações da polícia paulista eram semelhantes as do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro, que é tema do famoso filme “Tropa de Elite”, que só chega ao cinema no dia 12 de outubro, mas que se tornou popular devido a pirataria desenfreada. Indagado sobre o filme, ele diz que ainda não o assistiu, mas quer fazê-lo.
Chega-se, finalmente, na violência. “Acompanho com espanto os números dessa polícia que é mais violenta do mundo”, denuncia, dizendo que, com certeza, as ações de grupos armados não matam ricos. É como se quisesse abrir os olhos das pessoas, ele que subiu aos morros, adentrou favelas e viu a realidade que o filme pretende mostrar. “Nós é que inventamos que o morro é um lugar que não devemos freqüentar”, afirma com conhecimento de causa. Para subir lá, basta ir, diz, o que importa é um discurso coerente.É o fim da entrevista coletiva, anunciam. O resto das indagações seriam respondidas à noite, durante a palestra. Mas ainda sobra tempo para perguntar se ele está preparando material novo; um livro, por exemplo. “Tenho”, responde e fica em silêncio. “O quê?”. “Só daqui cinco anos”, ele responde e ri. É a primeira vez que solta um riso maior. Só depois, tentado continuar a entrevista é que se descobre: ele estava mesmo cansado.
____________
(O Diário do Norte do Paraná - Outubro/2007)
- Lembrei do texto depois de ler o perfil de Barcellos no blog do Ricardo Alexandre. No texto, ele diz que acompanhou Caco na simpósio em Maringá. Eu não fui. No texto, Alexandre confirma a condição de astro na passagem do jornalista pela cidade: "Daqui ele vai para sua casa, compensar as poucas horas de sono no Paraná, mas à tarde sai novamente a campo para, em plena hora do rush, se espremer nos ônibus de São Paulo em busca de um personagem para o “Profissão Repórter”. Ele, que havia 24 horas era assediado feito um astro em Maringá, quer ouvir o mais comum dos homens."

10 de set. de 2008

fulano, foto
O tempo, independente de seu ângulo ou tema, continua passando. Passa por teorias estéticas, pela porta descascada ou pelo público que olha do lado de fora - mas que não entra, como quem impedisse fosse uma força de anjo exterminador. As coisas vão ficando velhas, deixando um vazio e uma angústia e Manoel de Barros escreveu que “De forma que recolhia coisas do nada, nadadeiras, falas de tontos, libélulas – coisas/ Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos”. Uma lata de tinta espalhada no chão ou a falta de uma mão para tocar a campanhia.
Franklin Nunes estuda Ciências Sociais.
Tipo um idéia efêmera, a fotografia tenta, vã, prender o momento pelos dentes. Ou então o que fica são memórias. O fotógrafo Franklin Nunes quis mostrar as suas, talvez de um tempo em que olhava para a cidade quando ela ainda acontece. Nos tempos misturados, o resultado é a exposição “memórias de franklin nunes” (sim, minúsculo), aberta desde o dia 24 de setembro na sala Joubert de Carvalho, ao lado da Biblioteca Central Bento Munhoz da Rocha Neto. A mostra fica no espaço até dia 11 de outubro e a entrada é de graça. Ele só quer mostrar a cidade, que os olhos cansados não nos deixa ver e perceber, diz.
Entre e olhe; assine o livro. Lá no fundo da sala, Nunes também olha as pessoas, assim como deitou seu olhar de fotógrafo sobre os espaços urbanos, procurando no comum – uma casa abandonada, uma porta descascada, o parapeito – resultados inusitados. Influência de Camus, isso. E de Manoel de Barros, aquele lá de cima, cuja a citação está na porta de entrada da exposição, mas que muitas vezes as pessoas insistem em não transpor, queixa-se.
Adoro o velho, ele diz. Isso está nas fotos, pregadas nas paredes com molduras de tapumes de construção – essas paredes de exposição nas ruas das cidades. Uma foto em cima da moldura pouco nobre de tapume, com cartazes descascados anunciando o show da banda punk Cólera. Mas isso já passou; e tornou as coisas velhas. É isso que se vê pela visão do fotógrafo.
“Estamos falando de fotografia, estamos falando do tempo”, corta o fotógrafo.
“São fotos simples, na composição, no enquadramento; são chapadas”, explica. Simples assim. Então não há porque ver isso, pode-se pensar. Há sim, pois está ali, naquelas imagens, o que não se espera, a geometria das ruas. “Chama atenção porque você não vê as pessoas olhando para ranhuras nas paredes”, diz Franklin Nunes, sobre suas memórias, as fotos.
Coincidência. Talvez por esse motivo místico suas fotos tenham parado na sala Joubert de Carvalho, que embora no centro, mais parece o retrato do abandono, pensa ele. “O espaço é ótimo, bem localizado, mas às vezes a sala fica fechada por muito tempo, não tem que cuide [das exposições] enquanto não estou aqui; a iluminação é péssima”, afaga para bater, enquanto sentado lá no fundo espera as pessoas entrarem.
O velho, o sujo, o esquecido. Essas são características do trabalho de Franklin Nunes.
Quando fala da sala, é como se estivesse falando da cidade que fotografa, que embora tenha nome (e não nos interessa saber: não há legendas nas fotos), é o mesmo todas as cidades: quando se fala da comunicação entre o sujeito urbano e o meio, todas as cidades são iguais. “São coisas comuns, todo mundo já viu isso: uma campanhia... um prédio velho...”, refere-se a suas fotos como se falasse de qualquer lugar.
Sua exposição ia se chamar “memórias de um fulano de tal”.
_______________
(O Diário do Norte do Paraná - Setembro/2007)
Bituca
Não adianta tapar os olhos: o cigarro é um companheiro e tanto. Parceiro das horas solitárias, ele preenche o vazio da sala. Quando se está triste, nervoso, ansioso, estressado, idem. Também nos momentos de alegria e celebração, acende-se um cigarro para beber e brindar com a felicidade. Melancólica ironia. Levar um cigarro à boca é como beijar um inimigo.
A metáfora do companheiro traidor é usada pela jornalista Adélia Maria Lopes. Durante 25 anos, ela conviveu com o cigarro, como se vivendo um casamento perfeito - só que sem saber que o cônjuge a traía. Começou a fumar porque na juventude a regra que imperava era a da contestação, da liberdade acima de tudo. O cigarro tornou-se seu melhor companheiro. ‘’Ele é uma muleta’’, diz. Sim, escora as pessoas. Assim aconteceu com ela.
Quando andava de carro, lá estava o companheiro entre os dedos, amarelando-os. No banco de trás do automóvel, estavam os vários maços que ela olhava pelo retrovisor. Quando o telefone tocava, Adélia não sabia atendê-lo sem acender um cigarro. Dizer ‘’alô’’ era sinônimo de dar uns tragos. No trabalho, quando proibiram de fumar dentro da sala, o rendimento caiu pela metade. Para passar a ansiedade, só sabia andar de um lado para o outro. Não acalmou enquanto não se tornou exceção: com o cigarro aceso, poderia voltar tranqüilamente a tamborilar os dedos em suas máquina de escrever. Desmarcou uma viagem para Alemanha por causa do cigarro. Como iria se separar do companheiro durante o vôo? Jamais! Não foi.
Para quem chegou a fumar cinco (isso mesmo, cinco!) maços por dia - ou seja, 100 cigarros - ter largado o vício há quatro anos foi uma atitude que Adélia considera uma vitória. Ainda mais para ela, que gostava de fumar. Os dedos amarelados, o cheiro no corpo, o perigo de perder os dentes ou de desenvolver uma doença fatal. Por muito tempo, nada disso assustou Adélia. Fumava e ponto. ‘’Sempre achava engraçado pessoas dizerem que pararam de fumar; fazerem campanhas contra o fumo... Hoje sou exemplo’’, orgulha-se.
Quem a ouve falar, pode pensar que foi fácil. Não foi. Foram precisos alguns métodos para ajudar: acupuntura auricular e a laser, florais e um porre de cigarro. Na ocasião, fumou desde as primeiras horas da manhã até a madrugada do dia seguinte, em uma festa. No outro dia, usou a ressaca de tabaco para largar. ‘’Se ficar cinco minutos sem fumar, fico 10. Se ficar, 10, fico 15. Se ficar 15, nunca mais fumo’’, pensou. Dito e feito: a força de vontade e a terapia tiveram efeito. ‘’Hoje, peço perdão para as pessoas que eu fumei do lado’’. Na época em que parou, fumava a marca Free. Quando deixou a dependência, diz que ganhou outro tipo de liberdade: ‘’Agora tenho o prazer de ser livre’’.
Mais exemplo
A assessora parlamentar Sônia Maschke achava glamouroso fumar. Era o que se passava nas fitas de cinema quando tinha 16 anos. Fumar era sinônimo de luxo, charme, elegância. O cigarro seduz. Sônia só conseguiu se desvencilhar dos braços do galã há quatro meses, quando parou de fumar com ajuda de remédios. Só agora tem a certeza de que durante 30 anos foi enganada. O mocinho era, na verdade, o vilão.
Ela, porém, não se iludia. Sempre soube que a relação com o cigarro era perigosa. ‘’Já não sabia o que era vício e o que era prazer’’, diz. Ainda assim, não conseguia largar. Como se disse, o fumo tem armas que pegam pela boca. Sempre dá um jeito fazer a pessoa voltar ao vício. Com Sônia não foi diferente. Tentou parar por diversas vezes. Não dava. Eterno retorno. ‘’Adotei o lema dos alcólicos anônimos: vou ser sempre uma fumante, mas não vou fumar hoje’’, revela.
De vez em quando, Sônia se pega com vontade de fumar. Resiste bravamente. Acha que a marcação cada vez maior em cima dos fumantes ajuda. ‘’Hoje em dia é difícil ser fumante. Não há mais espaço como antigamente. Cada vez mais pessoas são contra. Quando fumava, me sentia como que infringindo uma lei’’, reconhece. Mesmo assim, custou a parar. Não tinha força. Como muita gente que tenta parar, arrumava desculpa para fumar. ‘’Qualquer situação que saía do controle era um motivo para acender um cigarro’’, conta.
Nessa época, o charme do cinema ‘’noir’’, com suas belas mulheres e homens com cigarro a tiracolo, foi substituído pelas batalhas épicas: era preciso vencer a guerra contra o fumo. Um remédio ajudou. Sônia finalmente encontrara sua fórmula para largar o vício. Agora o filme de sua vida vai ter um final mais feliz.
__________
(Folha de Londrina - Agosto/2008)
Paixão
Valdir Braga é aposentado, tem 71 anos e, até a tarde de segunda-feira, não tinha passagem alguma pela polícia. Sempre fora um cidadão de bem. Hoje, a Delegacia de Homicídios de Curitiba aguarda que ele se entregue. A vida do aposentado vai mudar e ele pode pegar entre seis e 20 anos de prisão. O motivo: amor e ciúmes.
Eram 14 horas de segunda-feira quando Braga matou, com golpes de facão, o também aposentado Zaquel Luiz Toledo, 76. Toledo era viúvo e despertou em Braga o sentimento que motivou o assassinato: ciúmes. Desconfiado de um caso entre sua esposa e o homem que alugava a casa onde vivia com mulher, Braga decidiu tirar satisfação.
O crime aconteceu no quintal que dividiam na Vila São Domingos, no bairro Cajuru. Ao lado do local onde ocorreu o assassinato havia um canil. As marcas de facão nos braços de Toledo remetem ao fato de que houve luta antes do crime.
Parentes da vítima ainda ouviram os gritos, mas não houve tempo para qualquer interferência. "Nesse momento, o homicídio já estava consumado’’, conta o delegado Edward Ferraz, da Delegacia de Homicídios.
Braga fugiu logo depois de desferir as três facadas -uma delas certeira, no coração. Fugiu em uma bicicleta azul. Sua mulher também está desaparecida e a polícia não tem mais detalhes sobre ela.
Agora, o aposentado vai responder por crime passional, que pode resultar em, no mínimo, seis anos de reclusão. Ainda assim, Braga pode ser beneficiado pelo Estatuto do Idoso, diz Ferraz. A lei garante uma diferenciação na aplicação da pena por causa de sua idade.
__________
(Folha de Londrina - setembro/2008)