Cidades invisíveis
Nas metrópoles, nos bairros, nas pessoas, são camadas diferentes de vida que vão existindo. Nada é sempre claro e transparente como um raio de sol atravessando um copo d’água. Todos os dias, são várias Curitibas que vão acontecendo em um mesmo momento. Cada observador vai construindo para si a sua imagem da cidade. Mais violenta para uns, moderna para outros ou ainda modelo para terceiros. É tudo isso e nada disso. Sempre ao mesmo tempo.
Nas esquinas e nos olhares, a cidade de cada morador se cruza com a do outro, criando uma teia de pontos de vistas distintos. São cidades invisíveis que vão se desenvolvendo arbitrariamente; são quase dois milhões de Curitibas que coexistem. Uma, no entanto, é a mais invisível de todas: a Curitiba que existe debaixo de nossos pés e olhos.
São quilômetros e mais quilômetros de galerias pluvias, que recebem água das chuvas, dos rios, do homem que lava seu automóvel no sábado de sol. Há ainda os canos da rede de esgoto que levam descargas de vasos sanitários, água misturada com espuma de pasta de dente vinda de bocas com hálito fresco ou o que sobrou da lavagem das panelas de um restaurante chique. Toda essa água suja escoa pelo ralo, viaja pelas profundezas do asfalto e vai parar em estações de tratamento, que devolvem a melhor água possível nas torneiras.
Além do sistema de rede de esgoto ou galerias pluvias, esta terra que tudo dá ainda abriga: cabos de fibra óptica das companhias de telefonia; tubos de gás que levam fogo aos edifícios; estações de energia elétrica que iluminam as noites frias da Rua das Flores e de outros pontos da região central de Curitiba. São dezenas de serviços oferecidos à população por debaixo de tudo.
No subterrâneo da cidade, uma vida que ninguém vê acontece. Uma vida formada por um emaranhado de galerias, canos, tubos, túneis, excrementos, água, baratas, teias de aranha, lixo, sofás e outras coisas inimagináveis. Depois dessa viagem ao centro da terra, só há uma certeza: o chão em que se pisa não é tão sólido quanto se pensa.
Nas esquinas e nos olhares, a cidade de cada morador se cruza com a do outro, criando uma teia de pontos de vistas distintos. São cidades invisíveis que vão se desenvolvendo arbitrariamente; são quase dois milhões de Curitibas que coexistem. Uma, no entanto, é a mais invisível de todas: a Curitiba que existe debaixo de nossos pés e olhos.
São quilômetros e mais quilômetros de galerias pluvias, que recebem água das chuvas, dos rios, do homem que lava seu automóvel no sábado de sol. Há ainda os canos da rede de esgoto que levam descargas de vasos sanitários, água misturada com espuma de pasta de dente vinda de bocas com hálito fresco ou o que sobrou da lavagem das panelas de um restaurante chique. Toda essa água suja escoa pelo ralo, viaja pelas profundezas do asfalto e vai parar em estações de tratamento, que devolvem a melhor água possível nas torneiras.
Além do sistema de rede de esgoto ou galerias pluvias, esta terra que tudo dá ainda abriga: cabos de fibra óptica das companhias de telefonia; tubos de gás que levam fogo aos edifícios; estações de energia elétrica que iluminam as noites frias da Rua das Flores e de outros pontos da região central de Curitiba. São dezenas de serviços oferecidos à população por debaixo de tudo.
No subterrâneo da cidade, uma vida que ninguém vê acontece. Uma vida formada por um emaranhado de galerias, canos, tubos, túneis, excrementos, água, baratas, teias de aranha, lixo, sofás e outras coisas inimagináveis. Depois dessa viagem ao centro da terra, só há uma certeza: o chão em que se pisa não é tão sólido quanto se pensa.
O cheiro do ralo
No dia 21 de fevereiro de 2008 não choveu em Curitiba. Por volta das 13 horas, muito gente se surpreendeu ao se deparar com a Avenida Visconde de Guarapuava fechada. "O trânsito de Curitiba está cada vez pior", pensaram alguns. "Um acidente horrível aí na frente", passou pela cabeça de outros. Enquanto a imaginação das pessoas agia, Luci Machado Santana, com 26 anos na época, era resgatada de dentro de um bueiro. A mulher havia passado mais de cinco horas vagando por mais de dois quilômetros de galerias pluviais no subterrâneo de Curitiba.
Luci entrou em uma grande abertura, de cerca de dois metros, que existe na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico. Relatou que estava fugindo de traficantes. O que passou debaixo da terra, só ela e Deus sabem. Pode-se, no entanto, afirmar: não deve ter sido nada fácil. Na primeira parte do trajeto, Luci deve ter conseguido enxergar alguma coisa, pois a luz do sol ainda penetra pela entrada da galeria. A medida em que se vai andando - sempre com a água correndo entre as pernas - só a imensa escuridão vai crescendo à frente. Mesmo que os olhos se acostumem, chega um momento que em a luz é só uma lembrança e a treva se faz. A sensação é a mesma que entrar em uma caverna, mas sabendo que a cidade está ali em cima, a poucos metros da cabeça.
A mulher só conseguiu sair viva na Visconde de Guarapuava por um motivo: no dia 21 de fevereiro do ano passado fez sol na Capital mais fria do País. Caso a chuva tivesse caído em Curitiba, provavelmente Luci teria morrido afogada e seu corpo talvez nunca fosse encontrado. Na sua caminhada, deve ter escorregado e caído várias vezes, pois o terreno é irregular, com pedras e restos de cimento; em outros pontos, a lama misturada com lixo faz com que os pés afundem. Como a maioria das pessoas, Luci deve ter sentido asco da água em que pisava - pois, apesar de não ser esgoto, o cheiro é forte. E fica pior a medida em que se permanece dentro da galeria. Causa vertigem.
Não deveria ser assim. A água que corre em galerias pluviais deveria ser mais limpa do que é. A população contribui com a poluição jogando lixo nos rios, nas ruas, nos bueiros. De uma forma ou outra, tudo acaba sendo despejado nas águas que correm para os rios. "Objetos como sofás, geladeiras e fogão são comuns", diz Djalma Mendes do Santos, gerente da Bacia do rio Belém da Secretaria Municipal de Obras da Prefeitura de Curitiba, órgão que administra as galerias pluviais.
Existem ainda as ligações ilegais entre as redes de água e esgoto, o que acaba prejudicando os dois. "Se não houvesse o lixo, o aspecto das galerias pluviais seria bem diferente. Até a questão do cheiro", diz o engenheiro civil e sanitarista Almir Bonatto,
do Departamento de Pontes e Drenagens da Secretaria de Obras. O cheiro da água não é o único problema. A poluição leva ao entupimento das galerias e, consequentemente, a enchente de muitos pontos de Curitiba.
O ponto em que a mulher que parou a Visconde de Guarapuava entrou é justamente onde o rio Belém, que corta Curitiba, passa por baixo de ruas, avenidas, prédios, pessoas e carros. A nascente do rio fica quase na divisa com o município de Colombo. O rio corre aberto até o Centro Cívico, corta todo o Centro da cidade dentro das chamadas galerias celulares (caixas de concreto de cerca de dois metros), e volta a ficar a céu aberto na região da Rodoferroviária. Por fim, deságua no rio Iguaçu. Curitiba ainda é cortada pelos rios Atuba e Barigui.
Além das galerias celulares principais, existem milhares de outras galerias secundárias que abrigam a água que cai em bueiros ou bocas-de-lobo, na linguagem popular, ou caixa de captação, como é denominada em termos técnicos. Na prefeitura de Curitiba, não há um levantamento de quantos quilômetros de galerias pluviais existem debaixo da terra, nem qual o volume de água que corre nos túneis. Os engenheiros afirmam, porém, que geralmente as galerias seguem o mesmo caminho das ruas.
Já a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que administra o recolhimento e tratamento do material que escoa na rede de esgoto, informa que, até fevereiro deste ano, exatamente 5.491 quilômetros de tubos passavam por baixo de Curitiba. Se colocados em linha reta, representam uma viagem da Capital paranaense até Salvador, na Bahia. Desses mais de cinco mil quilômetros, 455 deles são tubos de grandes dimensões (chamados de coletores troncos e emissários), ou seja, permitem que pessoas caminhem por debaixo de Curitiba por quase 500 quilômetros.
A tubulação recolheu, também em fevereiro, um total 6.954.867 metros cúbicos de esgoto. A média do volume coletado nos últimos 12 meses é 6.886.183 metros cúbicos. São quase sete bilhões de litros de esgoto recolhidos por mês, em média, em Curitiba. Hoje, 85% do esgoto da cidade é recolhido.
O sistema que recolhe o esgoto é separado do que recolhe a água da chuva, ao contrário do que muitos imaginam. Nas galerias do esgoto, é quase impossível - e não recomendável - entrar, devido ao mau cheiro, a ameaça de contrair doenças, e até mesmo pelo risco de morte, devido a quantidade de gases tóxicos que são liberados dentro dos coletores. Hoje, a manutenção é feita por caminhões e jatos de água. Para entrar, só com muita proteção, como máscaras e botas. "Mesmo protegido, já vi muito companheiro pegar micose. Eu não peguei!", ri Élsio Selbmann, agente técnico administrativo, que há 21 anos trabalha na Sanepar. Ele já entrou algumas vezes na rede de esgoto, hoje não mais.
Nessa vida toda dedicada ao que se passa nos subterrâneos de Curitiba, Selbmann diz já ter visto muita coisa estranha correndo em meio ao esgoto. Animais mortos, como cachorros e gatos, são comuns. Ele conta, no entanto, que o maior momento de tristeza no trabalho foi quando viu, pela primeira vez, um feto boaindo na água. A prática ilegal não chega a ser comum, mas também não é uma raridade.
"As pessoas nunca imaginam o que se passa ai embaixo", diz ele. A confidência de Selbmann o leva a uma reflexão. Sobre o que se passa no submundo (literalmente) de Curitiba, ele medita: "Lá embaixo é um mundo que ninguém vê".
Luci entrou em uma grande abertura, de cerca de dois metros, que existe na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico. Relatou que estava fugindo de traficantes. O que passou debaixo da terra, só ela e Deus sabem. Pode-se, no entanto, afirmar: não deve ter sido nada fácil. Na primeira parte do trajeto, Luci deve ter conseguido enxergar alguma coisa, pois a luz do sol ainda penetra pela entrada da galeria. A medida em que se vai andando - sempre com a água correndo entre as pernas - só a imensa escuridão vai crescendo à frente. Mesmo que os olhos se acostumem, chega um momento que em a luz é só uma lembrança e a treva se faz. A sensação é a mesma que entrar em uma caverna, mas sabendo que a cidade está ali em cima, a poucos metros da cabeça.
A mulher só conseguiu sair viva na Visconde de Guarapuava por um motivo: no dia 21 de fevereiro do ano passado fez sol na Capital mais fria do País. Caso a chuva tivesse caído em Curitiba, provavelmente Luci teria morrido afogada e seu corpo talvez nunca fosse encontrado. Na sua caminhada, deve ter escorregado e caído várias vezes, pois o terreno é irregular, com pedras e restos de cimento; em outros pontos, a lama misturada com lixo faz com que os pés afundem. Como a maioria das pessoas, Luci deve ter sentido asco da água em que pisava - pois, apesar de não ser esgoto, o cheiro é forte. E fica pior a medida em que se permanece dentro da galeria. Causa vertigem.
Não deveria ser assim. A água que corre em galerias pluviais deveria ser mais limpa do que é. A população contribui com a poluição jogando lixo nos rios, nas ruas, nos bueiros. De uma forma ou outra, tudo acaba sendo despejado nas águas que correm para os rios. "Objetos como sofás, geladeiras e fogão são comuns", diz Djalma Mendes do Santos, gerente da Bacia do rio Belém da Secretaria Municipal de Obras da Prefeitura de Curitiba, órgão que administra as galerias pluviais.
Existem ainda as ligações ilegais entre as redes de água e esgoto, o que acaba prejudicando os dois. "Se não houvesse o lixo, o aspecto das galerias pluviais seria bem diferente. Até a questão do cheiro", diz o engenheiro civil e sanitarista Almir Bonatto,
do Departamento de Pontes e Drenagens da Secretaria de Obras. O cheiro da água não é o único problema. A poluição leva ao entupimento das galerias e, consequentemente, a enchente de muitos pontos de Curitiba.
O ponto em que a mulher que parou a Visconde de Guarapuava entrou é justamente onde o rio Belém, que corta Curitiba, passa por baixo de ruas, avenidas, prédios, pessoas e carros. A nascente do rio fica quase na divisa com o município de Colombo. O rio corre aberto até o Centro Cívico, corta todo o Centro da cidade dentro das chamadas galerias celulares (caixas de concreto de cerca de dois metros), e volta a ficar a céu aberto na região da Rodoferroviária. Por fim, deságua no rio Iguaçu. Curitiba ainda é cortada pelos rios Atuba e Barigui.
Além das galerias celulares principais, existem milhares de outras galerias secundárias que abrigam a água que cai em bueiros ou bocas-de-lobo, na linguagem popular, ou caixa de captação, como é denominada em termos técnicos. Na prefeitura de Curitiba, não há um levantamento de quantos quilômetros de galerias pluviais existem debaixo da terra, nem qual o volume de água que corre nos túneis. Os engenheiros afirmam, porém, que geralmente as galerias seguem o mesmo caminho das ruas.
Já a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que administra o recolhimento e tratamento do material que escoa na rede de esgoto, informa que, até fevereiro deste ano, exatamente 5.491 quilômetros de tubos passavam por baixo de Curitiba. Se colocados em linha reta, representam uma viagem da Capital paranaense até Salvador, na Bahia. Desses mais de cinco mil quilômetros, 455 deles são tubos de grandes dimensões (chamados de coletores troncos e emissários), ou seja, permitem que pessoas caminhem por debaixo de Curitiba por quase 500 quilômetros.
A tubulação recolheu, também em fevereiro, um total 6.954.867 metros cúbicos de esgoto. A média do volume coletado nos últimos 12 meses é 6.886.183 metros cúbicos. São quase sete bilhões de litros de esgoto recolhidos por mês, em média, em Curitiba. Hoje, 85% do esgoto da cidade é recolhido.
O sistema que recolhe o esgoto é separado do que recolhe a água da chuva, ao contrário do que muitos imaginam. Nas galerias do esgoto, é quase impossível - e não recomendável - entrar, devido ao mau cheiro, a ameaça de contrair doenças, e até mesmo pelo risco de morte, devido a quantidade de gases tóxicos que são liberados dentro dos coletores. Hoje, a manutenção é feita por caminhões e jatos de água. Para entrar, só com muita proteção, como máscaras e botas. "Mesmo protegido, já vi muito companheiro pegar micose. Eu não peguei!", ri Élsio Selbmann, agente técnico administrativo, que há 21 anos trabalha na Sanepar. Ele já entrou algumas vezes na rede de esgoto, hoje não mais.
Nessa vida toda dedicada ao que se passa nos subterrâneos de Curitiba, Selbmann diz já ter visto muita coisa estranha correndo em meio ao esgoto. Animais mortos, como cachorros e gatos, são comuns. Ele conta, no entanto, que o maior momento de tristeza no trabalho foi quando viu, pela primeira vez, um feto boaindo na água. A prática ilegal não chega a ser comum, mas também não é uma raridade.
"As pessoas nunca imaginam o que se passa ai embaixo", diz ele. A confidência de Selbmann o leva a uma reflexão. Sobre o que se passa no submundo (literalmente) de Curitiba, ele medita: "Lá embaixo é um mundo que ninguém vê".
Velvet underground
Quem vê a agitação das ruas do Centro de Curitiba pode não imaginar que, invariavelmente, a cidade desperta preguiçosa. Todas as manhãs, é o homem de bigodes que empurra para cima a porta do comércio, a jovem com fones de ouvido que corre para não peder a condução, a mulher da vida e os últimos boêmios que, fora das convenções, voltam para casa. ''Quanto mais cedo, melhor, por que a gente vai ter que fechar a rua'', diz Alcione José Gonçalves, funcionário da Prefeitura de Curitiba há 22 anos. Ele se refere a melhor hora para entrar em uma galeria pluvial pelo meio da rua: tem de ser quando a cidade ainda não está inteira acordada. O ponto escolhido foi a Rua Pedro Ivo, no Centro de Curitiba, onde o Rio Ivo há muito passa sob o asfalto.
Na noite anterior a descida, chovera. A dúvida era se o nível da água não estaria muito alto. Já lá dentro, Gonçalves confirma que não. Apesar de ser a cerca de dois metros abaixo do chão, não se desce para a galeria sem apreensão. A escada de madeira já treme com o piso irregular e a força da água. Lá embaixo, esta corria na altura da canela. O cheiro é forte; de bueiro. A luminosidade é parca. Um único raio de luz, grosso, penetra pelo buraco que dá lugar a tampa metálica retirada. Em torno do buraco, ainda é possível enxergar um pouco. Alguns passos à frente, só com a ajuda das lanternas - que perdem a batalha contra o negrume da escuridão.
Para frente e para trás do ponto onde se desce - ponto este marcado pela luz entrando - só há uma escuridão infinita. No fundo da terra, não é possível se ter noção nenhuma: nem de tempo, nem de distância. É o que confirma o técnico da prefeitura. Ele conta que sempre se perde no dia quando o passa no subsolo.
Gonçalves indica o caminho: para frente, contra a correnteza, que não para nunca de surgir. Em cima, sem que isso viesse à memória, está a Pedro Ivo, no sentido à Barão do Rio Branco. Nas profundezas de Curitiba, quase não há barulho - só de água correndo, feito os rios que ainda não foram parar debaixo das cidades. A única companhia são das baratas, de todos os tamanhos, tipos, tons de coloração.
Debaixo da terra, a impressão é de filme de ficção científica, como se aquele fosse os escombros de um mundo pós-atômico, destruído por uma bomba de hidrogênio. O que sobrou do fim do mundo foram as imortais baratas, o cheiro de gás sulfídrico (liberado pela decomposição da matéria), a água nojenta que corre entre as pernas e uma noite eterna - talvez fruto da poeira da explosão, que tampa qualquer possibilidade de que os raios de sol penetrem e cheguem a superfície. Lá embaixo não há companhia, nem perspectiva de vida, nem felicidade. O subterrâneo de Curitiba - como o de qualquer outra cidade - é tão triste quanto uma morte injusta.
Alguns passos à frente (já debaixo da Rua Barão do Rio Branco), um buraco revela o entroncamento de uma outra galeria. Esta é mais antiga. Na prefeitura, ninguém sabe quando foi construída, mas imagina-se que seja uma das primeiras da cidade. Erguida com pedras e tijolos, forma um arco entre as cabeças de quem está embaixo e os pés apressados que cruzam a rua. É intrigante, amedrontadora, com um cheiro de passado e história. Dezenas de canos desembocam nesta galeria, que se liga à principal, na Rua Pedro Ivo. No chão, lodo misturado com areia, resto de lixo, canos quebrados e enferrujados, e três bueiros por onde a luz entra. Alguns passos mais, já no fim da quadra, a galeria é interrompida por uma parede.
De repente, no fundo dessa galeria pluvial com aspecto de uma masmorra medieval, um barulho semelhante a um estrondo de trovão ecoa por debaixo da terra. ''Chuva''. Dependendo do volume de água despejado dos céus, as galerias pluviais se enchem rapidamente, diz Gonçalves. É preciso sair rápido. Felizmente, era só um caminhão ou algo assim que cruzava a Rua Barão do Rio Branco. Lá fora, um sol ainda tímido se expremia entre nuvens de chumbo, anunciando o dia que apenas começara.
Na noite anterior a descida, chovera. A dúvida era se o nível da água não estaria muito alto. Já lá dentro, Gonçalves confirma que não. Apesar de ser a cerca de dois metros abaixo do chão, não se desce para a galeria sem apreensão. A escada de madeira já treme com o piso irregular e a força da água. Lá embaixo, esta corria na altura da canela. O cheiro é forte; de bueiro. A luminosidade é parca. Um único raio de luz, grosso, penetra pelo buraco que dá lugar a tampa metálica retirada. Em torno do buraco, ainda é possível enxergar um pouco. Alguns passos à frente, só com a ajuda das lanternas - que perdem a batalha contra o negrume da escuridão.
Para frente e para trás do ponto onde se desce - ponto este marcado pela luz entrando - só há uma escuridão infinita. No fundo da terra, não é possível se ter noção nenhuma: nem de tempo, nem de distância. É o que confirma o técnico da prefeitura. Ele conta que sempre se perde no dia quando o passa no subsolo.
Gonçalves indica o caminho: para frente, contra a correnteza, que não para nunca de surgir. Em cima, sem que isso viesse à memória, está a Pedro Ivo, no sentido à Barão do Rio Branco. Nas profundezas de Curitiba, quase não há barulho - só de água correndo, feito os rios que ainda não foram parar debaixo das cidades. A única companhia são das baratas, de todos os tamanhos, tipos, tons de coloração.
Debaixo da terra, a impressão é de filme de ficção científica, como se aquele fosse os escombros de um mundo pós-atômico, destruído por uma bomba de hidrogênio. O que sobrou do fim do mundo foram as imortais baratas, o cheiro de gás sulfídrico (liberado pela decomposição da matéria), a água nojenta que corre entre as pernas e uma noite eterna - talvez fruto da poeira da explosão, que tampa qualquer possibilidade de que os raios de sol penetrem e cheguem a superfície. Lá embaixo não há companhia, nem perspectiva de vida, nem felicidade. O subterrâneo de Curitiba - como o de qualquer outra cidade - é tão triste quanto uma morte injusta.
Alguns passos à frente (já debaixo da Rua Barão do Rio Branco), um buraco revela o entroncamento de uma outra galeria. Esta é mais antiga. Na prefeitura, ninguém sabe quando foi construída, mas imagina-se que seja uma das primeiras da cidade. Erguida com pedras e tijolos, forma um arco entre as cabeças de quem está embaixo e os pés apressados que cruzam a rua. É intrigante, amedrontadora, com um cheiro de passado e história. Dezenas de canos desembocam nesta galeria, que se liga à principal, na Rua Pedro Ivo. No chão, lodo misturado com areia, resto de lixo, canos quebrados e enferrujados, e três bueiros por onde a luz entra. Alguns passos mais, já no fim da quadra, a galeria é interrompida por uma parede.
De repente, no fundo dessa galeria pluvial com aspecto de uma masmorra medieval, um barulho semelhante a um estrondo de trovão ecoa por debaixo da terra. ''Chuva''. Dependendo do volume de água despejado dos céus, as galerias pluviais se enchem rapidamente, diz Gonçalves. É preciso sair rápido. Felizmente, era só um caminhão ou algo assim que cruzava a Rua Barão do Rio Branco. Lá fora, um sol ainda tímido se expremia entre nuvens de chumbo, anunciando o dia que apenas começara.
Histórias fantásticas
O emaranhado de túneis que existem no subterrâneo de uma grande cidade é uma metáfora assombradora do cérebro humano e seus neurônios. Ambos (túneis e neurônios) são caminhos desconhecidos, sem luz na maioria das ramificações, pulsando energia e movimentando tudo - corpo e cidade. Conversar com o empresário Marcos Juliano Ofenback é ser levado pela empolgação de suas ondas cerebrais; é acreditar em conspirações, sociedades secretas, acontecimentos inimagináveis que se desenvolveram bem abaixo de nossos pés. O empresário não está interessado na história oficial de Curitiba. Ele quer saber do que aconteceu debaixo da terra. É nisso que ele acredita, pesquisa e acaba por fazer as pessoas acreditarem também.
Para quem não ligou o nome à pessoa, uma lembrança. Ofenback ficou conhecido em meados de 2007 por levar a todo canto (páginas de revistas e jornais, programas de televisão) uma história que define como ‘’fabulosa; no limite da fantasia’’. A história diz respeito ao túneis secretos que, segundo Ofenback, cortam todo o Centro de Curitiba. Esses túneis não são galerias construídas para escoar água da chuva ou esgoto, são caminhos escondidos que durante muito tempo ligaram igrejas, clubes sociais, sedes do governo, residências das grandes famílias.
Imagine a Curitiba do século XIX ou a que existiu durante a Segunda Grande Guerra, na década de 40. Pense que nessa época, pontos importantes da cidade, como a Igreja Matriz e o Clube Concórdia, eram interligados por debaixo da terra, para uso militar. Como Ofenback, acredite na realidade desses fatos e uma história fantástica se faz diante dos olhos. ‘’Os militares usaram esses túneis durante a guerra para se proteger’’, afirma o empresário. É uma outra Curitiba - histórica, conspiratória, misteriosa - que se apresenta. Ainda assim uma Curitiba invisível. Muitos desse túneis, no entanto, não precisam de imaginação: eles existem.
Entre os já tornados públicos pelo empresário está o do Clube Concórdia, reduto alemão em Curitiba. Um alçapão em uma das salas do clube serve de entrada para o local que, depois de alguns metros, é interrompido por uma parede. Na Sociedade Garibaldi, Ofenback diz que há um túnel semelhante. Já na Igreja Matriz, a entrada para o túnel que a ligaria com outros pontos subterrâneos do Curitiba está tampada, mas é possível ver parte da escada usada para descer. ‘’Os túneis eram construídos debaixo das igrejas pois estas não eram bombardeadas durante as guerras’’, explica o pesquisador.
Indícios dão conta ainda da existência de ligações secretas no Colégio Estadual do Paraná (Ofenback procurou, mas não achou), em pontos altos do bairro Pilarzinho, em residências no bairro Mercês. Na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, um túnel teria funcionado como depósito de armas para o exército, na Segunda Guerra; na Rua Barão do Rio Branco, túneis ligariam as antigas casas da região. A descoberta mais recente de Ofenback foi uma entrada em um terreno em frente à Câmara Municipal. O buraco, com uma escada deteriorada, tem quase seis metros. No local, funcionava, em meados do século 20, um depósitos de bondes. Ofenback investiga ainda a existência de túneis em quase todas as igrejas da região central. ‘’É assim em quase todas as grandes cidades’’, resume.
Nada, porém, pode ser provado com certeza - nem a existência de dessas ligações, nem a sua real utilização. De acordo com o pesquisador, quase não há documentos sobre o assunto, o que impede de comprovar datas de construção ou quais as finalidades dos túneis.
Mesmo que tenham existido (ou ainda existam) de fato, é quase impossível que as ligações estejam intactas, já que os prédios mais modernos exigem a construção de fundações que podem ter interrompido os caminhos. É um mistério que, talvez, nunca poderá ser provado ou percorrido. O que não deixar de motivar Ofenback, que fala com empolgação de seus planos, ideias, projetos - estes sempre envolvendo os túneis, tão misteriosos e intrigantes quanto as ligações cerebrais.
Para quem não ligou o nome à pessoa, uma lembrança. Ofenback ficou conhecido em meados de 2007 por levar a todo canto (páginas de revistas e jornais, programas de televisão) uma história que define como ‘’fabulosa; no limite da fantasia’’. A história diz respeito ao túneis secretos que, segundo Ofenback, cortam todo o Centro de Curitiba. Esses túneis não são galerias construídas para escoar água da chuva ou esgoto, são caminhos escondidos que durante muito tempo ligaram igrejas, clubes sociais, sedes do governo, residências das grandes famílias.
Imagine a Curitiba do século XIX ou a que existiu durante a Segunda Grande Guerra, na década de 40. Pense que nessa época, pontos importantes da cidade, como a Igreja Matriz e o Clube Concórdia, eram interligados por debaixo da terra, para uso militar. Como Ofenback, acredite na realidade desses fatos e uma história fantástica se faz diante dos olhos. ‘’Os militares usaram esses túneis durante a guerra para se proteger’’, afirma o empresário. É uma outra Curitiba - histórica, conspiratória, misteriosa - que se apresenta. Ainda assim uma Curitiba invisível. Muitos desse túneis, no entanto, não precisam de imaginação: eles existem.
Entre os já tornados públicos pelo empresário está o do Clube Concórdia, reduto alemão em Curitiba. Um alçapão em uma das salas do clube serve de entrada para o local que, depois de alguns metros, é interrompido por uma parede. Na Sociedade Garibaldi, Ofenback diz que há um túnel semelhante. Já na Igreja Matriz, a entrada para o túnel que a ligaria com outros pontos subterrâneos do Curitiba está tampada, mas é possível ver parte da escada usada para descer. ‘’Os túneis eram construídos debaixo das igrejas pois estas não eram bombardeadas durante as guerras’’, explica o pesquisador.
Indícios dão conta ainda da existência de ligações secretas no Colégio Estadual do Paraná (Ofenback procurou, mas não achou), em pontos altos do bairro Pilarzinho, em residências no bairro Mercês. Na esquina das ruas Riachuelo e Carlos Cavalcanti, um túnel teria funcionado como depósito de armas para o exército, na Segunda Guerra; na Rua Barão do Rio Branco, túneis ligariam as antigas casas da região. A descoberta mais recente de Ofenback foi uma entrada em um terreno em frente à Câmara Municipal. O buraco, com uma escada deteriorada, tem quase seis metros. No local, funcionava, em meados do século 20, um depósitos de bondes. Ofenback investiga ainda a existência de túneis em quase todas as igrejas da região central. ‘’É assim em quase todas as grandes cidades’’, resume.
Nada, porém, pode ser provado com certeza - nem a existência de dessas ligações, nem a sua real utilização. De acordo com o pesquisador, quase não há documentos sobre o assunto, o que impede de comprovar datas de construção ou quais as finalidades dos túneis.
Mesmo que tenham existido (ou ainda existam) de fato, é quase impossível que as ligações estejam intactas, já que os prédios mais modernos exigem a construção de fundações que podem ter interrompido os caminhos. É um mistério que, talvez, nunca poderá ser provado ou percorrido. O que não deixar de motivar Ofenback, que fala com empolgação de seus planos, ideias, projetos - estes sempre envolvendo os túneis, tão misteriosos e intrigantes quanto as ligações cerebrais.
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(na folha de londrina, março de 2009)