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9 de fev. de 2009

Anônimo
A ''vózinha'' não sabe qual idade tem. Sua casa, se é que o barraco em que vive pode receber este nome, fica cravada no meio do Jardim União, em uma das regiões mais pobres e violentas do bairro Uberaba, em Curitiba. O sofá tem um buraco no meio. Restos de arroz e feijão estão espalhados por todo o canto. Sobre uma cadeira de palha, o que parecem ser veneno e excremento de rato se misturam a pequenas cápsulas cinza que lembram comprimidos. O cheiro é forte, quase irrespirável, e as tábuas de madeira que sustentam a casa estão apodrecidas pelos anos, de modo que a luz, o frio e a umidade penetram cada vez mais pelas frestas que vão surgindo. No teto, poeira e teias de aranha formam um emaranhado de uma massa amorfa, sufocante.
A ''vózinha'' vive sozinha ali. Quase não consegue falar. Os dois filhos moram na casa da frente, em melhores condições. Ela tem ainda cinco netos, que ''estão por aí''. Os filhos, ela diz que estão trabalhando - os agentes sociais que auxiliam ''vózinha'' revelam que o filho é pintor e a filha é prostituta. O nome dessa senhora que vive abaixo da linha da pobreza é Vergínia Maria de Jesus - ou algo próximo disso; impossível determinar. E nem adianta perguntar: ela não se lembra de Osíris Del Corso.
Ainda assim, Osíris frequentava a casa da 'vózinha''. Sua casa foi a última visitada pelo jovem antes de ele ser assassinado com um tiro no peito, no último final de semana, em uma trilha no Morro do Boi, em Caiobá, no Litoral do Estado. Junto com Osíris, a namorada de 23 anos foi estuprada e continua internada em um hospital em Curitiba. A última visita foi no dia 23 de dezembro de 2008, dois dias antes do Natal, ocasião em que Osíris levou uma cesta básica e sua companhia. Conversou amavelmente com a ''vózinha'', como sempre fazia, e limpou a casa - talvez a última faxina que o local tenha recebido.
As visitas faziam parte do trabalho social que o jovem de 22 anos realizava. Osíris era presidente do Rotaract, grupo de jovens do Rotary que tem a função de promover ações sociais. Como ''vózinha'', outras famílias receberam a visita do jovem antes do Natal. Além do Jardim União, ele levou cestas básica também ao Jardim Icaraí, igualmente miserável. Os moradores, ou não se lembram, ou recordam vagamente do estudante. Muitos dos moradores sofrem de várias doenças, inclusive mentais. As dores e feridas dessa gente não são metafísicas, mas estão expostas na carne.
É a situação da ex-catadora de papel Maria Zeferina de Jesus, que vive em uma casa que flutua sobre o esgoto, nos fundos da linha do trem, com mais nove pessoas. A senhora anda e se move com dificuldade. Com o dedo, mostra o inchaço das pernas e, sem muita precisão, diz que se lembra do jovem que garantiu um Natal um pouco melhor. É evidente que não se lembra.
O mesmo acontece com outros moradores que receberam a cesta básica no dia 23. A miséria e os maus tratos da vida não permitem a recordação. É natural que ninguém se lembre. Osíris era mais um daqueles anônimos que fazem do Brasil um país um pouco melhor. Era para continuar assim, anônimo, mas uma tragédia fez com que ele ficasse conhecido.
Outros
A assistente social Antonina Martins Valente primeiro derrama uma lágrima quando indagada sobre Osíris Del Corso, mas depois se segura. Foi ela quem introduziu o jovem na comunidade - colocou-o em contato com uma realidade que deprime qualquer um: uma realidade áspera, pontiaguda, cheia de arestas. Em Osíris, no entanto, parecia dar força para fazer mais. ''Eu me surpreendia com a vontade dele em ajudar'', revela Antonina.
Além ajuda nas casas que visitavam, Osíris e a namorada, que era envolvida em trabalhos sociais tanto quanto ele, também participavam de ações em instituições. Uma delas é o Recanto Feliz Santa Úrsula, no Uberaba, que cuida, em período integral, de 80 crianças de dois a cinco anos. Para o local, os dois levaram livros infantis e organizaram um passeio das crianças para bibliotecas do Centro. ''Eram jovens envolvidos com nossa realidade carente'', lembra a irmã Marisa Petrikovski.
Já no Clube de Mães Estrelas, que promove cursos, oficinas e eventos junto a comunidade, Osíris e a namorada participavam na organização de festas. No último Dia das Crianças, eles estavam lá, ajudando a fazer e distribuir o bolo que foi servido para 1.500 crianças. ''A mão-de-obra que traziam era muito importante. Parecia pouco, mas a comunidade ficava muito feliz'', lembra Carla de Matos, presidente do projeto.
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(Folha de Londrina, fevereiro, 2009)

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