textos jornalísticos e afins;

20 de nov. de 2008

Crime e castigo
A história é longa. Entre 1912 e 1916, rebeldes travaram uma dura batalha contra os governos do Paraná e, principalmente, de Santa Catarina. Marcada pelo caráter messiânico de "guerra santa", o conflito ficou conhecido com Guerra do Contestado. O último dos rebeldes a resistir foi o único entre os líderes que enfrentou a prisão. Chamava-se Deodato Manuel Ramos, mais conhecido pela alcunha de Adeodato. Ele foi preso em agosto de 1916. Morreu anos depois.
Sua morte, porém, quase foi antecipada. Encarcerado em Santa Catarina, Adeodato topou em um dia qualquer com Bruno Vicente Haendechen, que apunhalou o revolucionário no peito, deixando-o em estado grave. A notícia do crime foi publicada até em jornais paranaenses da época. Bruno estava preso por homicídio. Não era sua primeira passagem.
Em 1914, o marinheiro Bruno Vicente Haendechen tinha 23 anos. Era catarinense, branco, solteiro, católico e sem instrução. Condenado por roubo no dia 23 de setembro do mesmo ano por um juiz de Direito da Comarca de Ponta Grossa, tornou-se um dos encarcerados da primeira penitenciária do Paraná no dia 5 de dezembro. O marinheiro, quando esteve preso no Estado, entrou com 66 quilos para cumprir dois anos e nove meses de prisão. Saiu com 59.
Aparentemente banal, a vida desse tal marinheiro cruzou-se com a de uma personagem histórica em algum ponto perdido no tempo. Era, provavelmente, um bandido qualquer que, depois, se tornou assassino. Sua história é só mais uma entre a de milhares de homens que cumpriram e outros mais de 13 mil que atualmente cumprem pena no sistema penitenciário do Paraná. Se hoje um preso está, por exemplo, esquecido pela sociedade no Complexo Penitenciário de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ao menos parte da história do marinheiro Bruno, 59 quilos, catarinense, branco, solteiro, católico e sem instrução, está sendo recuperada.
Não deixar que histórias como a deste homem se percam é a intenção da exposição "Regulamento da Penitenciária do Estado", organizada pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Seju) e pelo Departamento Penitenciário do Estado (Depen) e que está em cartaz no Museu Paranaense até fevereiro de 2009. A exposição relembra os 100 anos da criação da primeira penintenciária do Paraná, em 1908, batizada de Penitenciária do Estado.
Regulamentada pelo decreto número 564, de 23 de setembro daquele ano, o local só recebeu seu primeiro preso em 1909. Começou a funcionar onde era o Hospital Nossa Senhora da Luz, que na época tratava os considerados "doentes mentais". A Penitenciária do Estado funcionou até 2006, já como Penitenciária do Ahú.
Entre sua criação e desativação, o local recebeu muitos "Brunos" e passou por diversas modificações. A principal destacada por Feles Russi Filho e Carlos Alberto Pereira, agentes penitenciários do Depen que fizeram a pesquisa que resultou na exposição, está no modo de tratamento dos presos. "A grande diferença é na questão dos direitos humanos. Hoje, os presos são tratados como homens. Há uma tentativa de recuperá-los", diz Pereira.
A criação da primeira penitenciária já representou um avanço em relação às cadeias anteriores. Antes de 1909, as grades eram de ferro fundido, cruzando barras verticais e horizontais. Pareciam masmorras. "A Penitenciária do Estado modernizou a idéia de cadeia, que era arcaica, medieval. Além disso, passou a tratar o preso como criminoso que devia cumprir uma pena. Ninguém era preso sem ter crime ou por que tinha cara de bandido", conta Pereira.
Mesmo com as condições melhorando ao longo do tempo, um problema persiste há 100 anos no Paraná: a crise de superlotação no sistema. A primeira penitenciária tinha lugar para 60 presos. Nas primeiras transferências, 56 vagas foram ocupadas logo de cara. Cem anos depois, o sistema penitenciário do Paraná continua trabalhando em seu limite.
Com 25 unidades, o Paraná tinha, em 23 de outubro deste ano, 13.643 presos em todo o Estado. As vagas disponíveis são 13.663 (ainda não contabilizadas as 900 recentemente abertas no Centro de Detenção e Ressocialização de Foz do Iguaçu). As restantes não suprem a demanda de presos condenados que cumprem penas em cadeias. "A gente sabe que se hoje fossem inaugurados dez presídios, todas as vagas seriam ocupadas. Nisso não mudou muito", acredita Feles.
Abandono
''Não podemos deixar esse material na obscuridade'', diz Feles Russi Filho, agente do Depen e presidente da comissão ''Resgatando nossa História'', que organizou a exposição sobre a criação da primeira penitenciária do Paraná. Ele se refere ao estado em que os documentos que guardam muito desse passado estavam. Abandonados nos arquivos do Depen, Feles temia a hora em que muitos deles fossem parar no lixo.
''A qualquer momento, alguém poderia achar que eram papéis sem importância e jogar no fogo'', diz. No material, mais de 80 livros com registros do primeiros presos do Paraná e centenas de prontuários com a história dessa parcela da população. ''Até hoje, esse material não recebeu um tratamento adequado'', critica Feles. De acordo com presidente da comissão, que é pós-graduado em História do Paraná, os documentos não estão disponíveis para um possível estudo acadêmico. Por isso, o uso do termo ''obscuridade''.
Para tirar o assunto um pouco das ''trevas'', Feles diz que a intenção da comissão para o futuro é a criação de um museu contando a história das penitenciárias do Paraná. ''Temos uma preocupação em criar um espaço para guardar esse material'', diz, afirmando que as pessoas devem ter acesso aos documentos. ''É uma forma de resgatar o orgulho de trabalhar no sistema penitenciário. Para a sociedade, os agentes são um monte de lixo cuidando de outro monte de lixo, que são os presos'', emenda Carlos Pereira, também membro da comissão.
__________
(Folha de Londrina, novembro, 2008)

4 de nov. de 2008

Citação (1)
"Assim, Köves passou a viver a tortura de uma eterna e incessante insegurança: praticamente todos os dias ele produzia um ou outro texto, ora mais longo, ora mais curto, que, do ponto de vista estilístico e hermético, aparentemente pleno de sentido, procurava, na medida do possível, adaptar ao modelo fornecido pelo redator-chefe, ou seja, corrigia e reescrevia até que finalmente nem ele próprio o entendia, porque, enquanto entendia, podia ver que o texto não tinha nenhum sentido, conseqüentemente não podia ser bom; para ser mais exato, não poderia corresponder à sua finalidade, da qual, naturalmente – e talvez aqui estivesse a raiz do problema –, o próprio Köves não esta muito ciente; porém, quando os textos ficavam prontos, Köves não conseguia definir se no final das contas eles eram funcionais, porque já não os entendia, e menos ainda a que propósito eles serviam". (pág. 270)
_____________________
Imre Kertész, em "O fiasco"

2 de nov. de 2008

Versos a um coveiro
Longe de ser seus melhores poemas, ainda assim o soturno poeta Augusto dos Anjos dedicou dois sonetos exclusivamente à figura do coveiro. Em antologias, os poemas ''Versos a um coveiro'' e ''O coveiro'' são classificados como menores dentro de sua obra. Se fosse contemporâneo aos nossos dias, Augusto dos Anjos não teria dedicado seu tempo a eles, também citados em outros versos do autor. O motivo é simples: a profissão está deixando de existir - ao menos com este nome. Quem afirma são os próprios profissionais.
Hoje, Dia de Finados, cerca de 100 mil pessoas são esperadas nos 22 cemitérios de Curitiba. Toda essa gente só vai estar lá mesmo de passagem. Mas quem ''vive'' mesmo em cemitérios são os coveiros... Ops!
Embora passem os dias em cemitérios, mesmo realizando enterros e exumações, os funcionários da morte já não se sentem mais à vontade ao serem chamados de coveiros. Hoje, preferem ser chamados de pedreiros. ''Coveiro é quem faz cova, cavada direto na terra. Nós não fazemos mais. Agora são gavetas, feitas com tijolos e placas de cimento'', defende Ismael Stella, funcionário do cemitério Nova Orleans, em Curitiba.
Ismael está nessa profissão há 30 anos. Começou como coveiro e vai terminar a vida como pedreiro, diz ele, que na labuta diária não teme mais nada, nem a morte. ''Não tenho medo. Como ter medo de algo que é natural para todo mundo?'', pergunta. Ismael relembra as covas que fazia até quatro anos atrás, mais estreitas e fundas que hoje. Sim, mediam sete palmos, confirma ele. ''Hoje, as gavetas são mais rasas e largas, para caber os caixões. Ou, então, é tudo construído para cima, como urnas'', conta Ismael, que divide o trabalho com outros cinco pedreiros.
Antônio Rezende Terras tem 61 anos e há 30 trabalha em cemitérios. Ele e os colegas concordam com o fim da profissão. ''Muita gente ainda chama a gente de coveiro, mas somos pedreiros. Trabalhamos mais com tijolo, massa, cimento. A cova na terra não existe mais'', argumenta ele, que trabalha ao lado de outros 14 pedreiros no Cemitério do Água Verde, também em Curitiba.
A morte do coveiro como profissão aconteceu em 2004. O fim das covas feitas direto na terra seguem uma resolução estadual daquele ano, criada com o objetivo de definir critérios de controle ambiental das áreas dos cemitérios. De acordo com Josiana Koch, diretora do Departamento de Pesquisa e Monitoramento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o controle do impacto ambiental dos cemitérios se dá principalmente em relação ao lençol freático. Este pode ser contaminado pela decomposição dos corpos.
De acordo com Josiana, a legislação não entra no mérito de como os enterros devem ser realizados - se direto na terra ou não -, mas a resolução determina que os corpos devem estar a pelo menos 1,5 metro do lençol freático. ''A legislação só cita medidas de isolamento do cadáver para não haver contaminação'', explica. Ainda assim, Josiana diz que as gavetas de alvenaria são, de fato, mais seguras para o meio ambiente. O mesmo pode ser dito dos cemitérios verticais, que não correm o risco de poluir a água. Sem terra, sem cova, agora coveiro é apenas personagem de poema...
_________
(Folha de Londrina, novembro de 2008)