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11 de dez. de 2008

O discreto charme da burguesia
Primeiro a mulher sorri. Tem os dentes alvíssimos, alinhados e hálito de hortelã: masca um chiclete discretamente. Ri, mas não em demasia. Veste pela primeira (e úlitma) vez uma roupa da moda, bem talhada, costurada com fios de ouro. Leva uma taça à boca e a borda do vidro - tão fino que parece papel - fica levemente marcada com o batom quase invisível que retoca os lábios da mulher. As bolhas da champanhe estouram no céu da boca dela. Sorri novamente um sorriso de bonequinha de luxo que será eternizado nas páginas de alguma coluna social. É a doce vida.
A cena acima é, naturalmente, inventada, o que não a torna incomum. Mulheres lindas sorriem aos montes em coquetéis de lançamento, em eventos de moda, em dias sem sol. São sempre sorrisos efêmeros, doces, sem crise, que poderiam passar despercebidos não fosse o olhar atento de um profissional contratado justamente para captar os melhores ângulos, os olhos mais bonitos, as poses mais naturais.
Os fotógrafos que cobrem as melhores festa da sociedade curitibana (toda alta sociedade é igual, dizem) são simpáticos, bem vestidos, sapatos brilhantes, cabelos cortados e barbas bem aparadas. Com o tempo, acabam se tornando um reflexo do mundo que cobrem, só que estão do outro lado e sabem disso. Sempre carregam o equipamento fotográfico a tira colo e algumas vezes têm receio de falar o que pensam verdadeiramente sobre a sociedade. Os nomes mais quentes - aqueles que sempre rendem boas fotos e devem estar nas colunas sociais - muitas vezes não são citados, como se fossem na verdade um dos nomes de Deus.
Pode parecer uma contradição, mas fotógrafos que cobrem a sociedade não têm vida social. Estão sempre correndo entre um evento e outro: no final da manhã na inaguração de uma loja no shopping, no meio da tarde no lançamento de uma coleção de moda de uma conhecida marca, madrugada a dentro no evento de final de ano de uma multinacional.
Namoradas, amigos, aniversário da avó, almoço ao meio dia, corrida na academia. A enumeração fica em segundo plano quando colocada ao lado da lista de quem deve ser fotografado: arquitetos de sucesso, advogados influentes, empresários poderosos, estilistas de destaque, políticos da vez, sobrenomes de peso e as mulheres desses homens. É uma roda viva que começa em um click e termina estampada em alguma coluna social.
"Já fotografei a mesma pessoa em três eventos diferentes no mesmo dia. Em todos, sem a pessoa repetir a roupa", conta Naideron Jr., 26 anos, há quase 10 envolvido com a profissão. Se a mulher citada troca de roupa três vezes por dia, isso acontece porque os eventos existem, as pessoas querem ser vistas e têm onde aparecer. Na outra ponta, há quem registre tudo isso. O mercado é basicamente movimentado por esses pilares.
Com a necessidade do registro, os fotógrafos começam a penetrar no mundo da alta sociedade, onde eventos e festas são tão importantes quanto as reuniões de negócio. Geralmente, os fotógrafos trabalham por conta, em parceria com as assessorias de imprensa contratadas para promover os eventos. O valor é cobrado por hora. "A sociedade curitibana é muito grande, mas as pessoas em evidência são poucas", comenta o fotógrafo Diego Pisante, 27 anos. No meio de tanta gente, é preciso aprender a selecionar quem interessa realmente. E quem interessa tem de se encaixar na equação "fazer um trabalho importante + momento de sucesso + família tradicional = pessoa a ser fotografada", diz Pisante.
"O segredo é descobrir como funciona. Entender como é o estilo de cada colunista, saber montar as fotos, colocar juntas as pessoas importantes. Saber quem é quente de verdade exige muitos anos de mercado", diz Naideron Jr.. Gerson Lima, 46 anos, fotógrafo social em Curitiba há 10 anos, concorda. Só o tempo de fotografia, aliada ao que ele chama de humildade, garante boas imagens e bom relacionamento. "É um mundo de muito glamour. Muitas vezes o fotógrafo acaba achando que faz parte de tudo aquilo, mas não faz. Quem pensa assim, a carreira acaba. Brinco dizendo que somos apenas serviçais", alerta Lima, rindo. E o serviço nesse caso é fazer com que se apareça da melhor forma possível.
Lima diz que é raro quem não queira estampar as páginas de uma coluna. Isso geralmente acontece quando a pessoa é muito rica. "Aparecer é sinônimo de que se faz sucesso", completa o fotógrafo. Talvez essa seja o atrativo que faz muitos se postarem charmosamente em frente às câmeras. Nem que seja um charme discreto.
"Há muita gente bonita e influente. As mulheres são lindas e não se fala sobre problemas. A crise não os atingiu e tudo é uma festa. Resumindo: são artistas do Paraná mas sem serem artistas. Aqui não há artistas...", descreve Lima (não sem uma ponta de uma melancolia reticente), como se fosse ele mesmo F. Scott Fitzgerald retratando em um de seus romances a alta sociedade americana dos loucos anos 20.
Não
Sem um mercado de celebridades, ainda que composto de uma sociedade rica e influente, Curitiba não tem ninguém famoso o suficiente que mereça ser flagrado por um paparazzo. É o que dizem os fotógrafos com quem FOLHA conversou. O merecimento se resume basicamente a artistas - principalmente as estrelas de televisão. Os paranaenses que atingiram tal status já não vivem mais no Estado. Todos estão no eixo São Paulo-Rio, principalmente sob as asas da Rede Globo.
"Curitiba não tem um mercado para paparazzo. Aqui, quem faz isso, tem o nome desvalorizado", acredita Diego Pisante. As fotos de celebridades em terras paranaenses passam longe dos flagrantes e ficam restritas a presença de famosos em eventos ou desfiles de moda. "Paparazzo fica queimado", dispara logo Gerson Lima, que define seu trabalho como "fotojornalismo social".
Naideron Jr. diz que os registros que faz das pessoas são no "bom sentido" e que nunca ficaria seguindo uma pessoa por flagrante indiscreto. "Tento ser o mais diplomata possível ao fazer uma foto", diz ele.
Se os paparazzi (ou, numa visão mais abrangente, os fotógrafos do mundo social) registram a fatia mais doce da vida dos ricos, poderosos e famosos, a inspiração para o uso da palavra italiana para designar esse tipo de profissional vem de um dos filmes do cineasta neo-realista italiano Frederico Fellini. Em "A Doce Vida" (1960), Fellini retratou a história de um jornalista vivido por Marcello Mastroiani, que trabalha acompanhado do fotógrafo Signore Paparazzo. O nome do fotógrafo teria sido escolhido pelo diretor inspirado em um mosquito da Sicília - o paparaceo.
Hoje, o termo paparazzo (paparazzi, no plural) é usado para se referir à fotógrafos que vivem em busca de flagrar momentos indiscretos de pessoas públicas como artistas, políticos, atletas, entre outros. Um flagra realmente quente pode valer muito dinheiro. "Só fazem isso por dinheiro", opina Naideron. "Como fotógrafo do social não se fica rico, mas dá para pagar as contas", completa Lima.
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(Folha de Londrina, dezembro, 2008)

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