Versos a um coveiro
Longe de ser seus melhores poemas, ainda assim o soturno poeta Augusto dos Anjos dedicou dois sonetos exclusivamente à figura do coveiro. Em antologias, os poemas ''Versos a um coveiro'' e ''O coveiro'' são classificados como menores dentro de sua obra. Se fosse contemporâneo aos nossos dias, Augusto dos Anjos não teria dedicado seu tempo a eles, também citados em outros versos do autor. O motivo é simples: a profissão está deixando de existir - ao menos com este nome. Quem afirma são os próprios profissionais.
Hoje, Dia de Finados, cerca de 100 mil pessoas são esperadas nos 22 cemitérios de Curitiba. Toda essa gente só vai estar lá mesmo de passagem. Mas quem ''vive'' mesmo em cemitérios são os coveiros... Ops!
Embora passem os dias em cemitérios, mesmo realizando enterros e exumações, os funcionários da morte já não se sentem mais à vontade ao serem chamados de coveiros. Hoje, preferem ser chamados de pedreiros. ''Coveiro é quem faz cova, cavada direto na terra. Nós não fazemos mais. Agora são gavetas, feitas com tijolos e placas de cimento'', defende Ismael Stella, funcionário do cemitério Nova Orleans, em Curitiba.
Ismael está nessa profissão há 30 anos. Começou como coveiro e vai terminar a vida como pedreiro, diz ele, que na labuta diária não teme mais nada, nem a morte. ''Não tenho medo. Como ter medo de algo que é natural para todo mundo?'', pergunta. Ismael relembra as covas que fazia até quatro anos atrás, mais estreitas e fundas que hoje. Sim, mediam sete palmos, confirma ele. ''Hoje, as gavetas são mais rasas e largas, para caber os caixões. Ou, então, é tudo construído para cima, como urnas'', conta Ismael, que divide o trabalho com outros cinco pedreiros.
Antônio Rezende Terras tem 61 anos e há 30 trabalha em cemitérios. Ele e os colegas concordam com o fim da profissão. ''Muita gente ainda chama a gente de coveiro, mas somos pedreiros. Trabalhamos mais com tijolo, massa, cimento. A cova na terra não existe mais'', argumenta ele, que trabalha ao lado de outros 14 pedreiros no Cemitério do Água Verde, também em Curitiba.
A morte do coveiro como profissão aconteceu em 2004. O fim das covas feitas direto na terra seguem uma resolução estadual daquele ano, criada com o objetivo de definir critérios de controle ambiental das áreas dos cemitérios. De acordo com Josiana Koch, diretora do Departamento de Pesquisa e Monitoramento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o controle do impacto ambiental dos cemitérios se dá principalmente em relação ao lençol freático. Este pode ser contaminado pela decomposição dos corpos.
De acordo com Josiana, a legislação não entra no mérito de como os enterros devem ser realizados - se direto na terra ou não -, mas a resolução determina que os corpos devem estar a pelo menos 1,5 metro do lençol freático. ''A legislação só cita medidas de isolamento do cadáver para não haver contaminação'', explica. Ainda assim, Josiana diz que as gavetas de alvenaria são, de fato, mais seguras para o meio ambiente. O mesmo pode ser dito dos cemitérios verticais, que não correm o risco de poluir a água. Sem terra, sem cova, agora coveiro é apenas personagem de poema...
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(Folha de Londrina, novembro de 2008)
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