textos jornalísticos e afins;

29 de out. de 2008

João
Na vida, no geral, poucas coisas são de se orgulhar. Uma das que orgulham a mim mesmo e que me alegram quando relembro – com uma ponta de fantasia até – foi o fato de ter podido ver João Gilberto cantar. Tê-lo visto se apresentar, da terceira fila do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, foi como ganhar um prêmio. Só que maior. Saber que vi João tocar e cantar me alegra de tal forma que posso enumerar outras poucas que me despertam tal sentimento: um dia de sol, um pouco de amor, coisas bonitas.
Imediatamente após os shows que fez em São Paulo em agosto último, os primeiros no Brasil depois de cinco anos sem subir aos palcos de sua terra, já é notório e importante dizer “Eu vi João Gilberto cantar” como um fato histórico. Este show, como qualquer outro de João, já um clássico (para as pessoas que o viram cantar). É tão importante dizer isso como dizer que se viu os Beatles cantarem (com a diferença de que os Beatles fazem, vá lá, arte; João faz MÚSICA). Só quem viu – ou quem o ouve em disco com o coração ardente pela beleza de seu canto – sabe o que digo. Confesso que quando digo a frase “Eu vi João Gilberto cantar” me pego assombrado com sua força e como o que tem de irreal. Nunca poderia que isso pudesse me ocorrer.
Quando se confirmaram as apresentações de João no Brasil, a expectativa se formou – não só em mim. Nas semanas que envolveram seus shows, o Brasil respirou um ''clima João Gilberto está entre nós'' (como se nunca estivesse estado). O anuncio foi o suficiente para sua presença ecoar em discussões que foram desde sites de relacionamento, páginas de jornais sérios e revistas de coluna social. O show começou bem antes de João subir ao palco. Em mim, o mesmo rebuliço. Em meus registros, quando anunciado locais, datas e valores das apresentações, escrevi: “Nos próximos trinta dias só uma coisa importa: João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira”. Era sete de julho de 2008. Uma semana depois, li uma frase de Caetano Veloso (publicada no jornal Folha de S. Paulo) sobre João: "Seu canto transforma e revela cada canção de que se aproxima. Eu tinha 17 anos quando ouvi tudo isso pela primeira vez. Agora, meu filho de 16 me pede para que eu o assegure de que ele poderá ver João Gilberto cantar. Não pode haver nada que me faça mais feliz". Uma afirmação dessa natureza – tão bonita também – nos faz também querer conhecer de perto esse canto. Era necessário que eu assegurasse a mim mesmo o direito de poder ver João.
Depois, veio o que todos puderam acompanhar pelas páginas de jornal. Confusão na venda dos ingressos, reclamações de quem não conseguiu comprar, acompanhamento massivo da imprensa, expectativa depois de cinco anos sem shows de João no Brasil, discussão sobre se ele apareceria mesmo; se reclamaria ou não. Eis que deu tudo certo (pelo menos para mim e para os que foram comigo ao concerto; o aparente egoísmo de minha afirmação contém na verdade o gosto do júbilo de ter conseguido as entradas).
Tocou dois dias em São Paulo e uma no Rio de Janeiro (até o fechamento desta edição de ZAZ, há mais uma apresentação marcada para Salvador, na Bahia). No primeiro show em São Paulo, atraso de mais de uma hora e meia. O bis gordo acalmou o público. No segundo – o que assisti com expectativa e êxtase – mais atraso. Nada que prejudicou. João entra o palco nu empunhando seu companheiro. É velhinho; tem um fio de voz e dedos que bailam no braço do violão como formigas sobre um prato de doce. Não precisa de mais nada: banda, pose, cenografia. Seis cordas e uma voz mínima bastam. Impressionante. A apresentação foi impecável, digna de quem há 50 anos reinventou a música brasileira. Diante de pouco mais de 800 pessoas, estava o homem que inventou a bossa nova. Não é para me orgulhar de ter podido estar entre eles?
Ver João cantar e tocar seu violão deveria ser uma experiência pela qual todos nós deveríamos passar. Como escreveu o biógrafo da bossa nova Ruy Castro, todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. A João, também deveria ser este um direito assegurado – (se em um País com muitas coisas feias como o Brasil ele inventou a bossa, a afirmação não é tão utópica assim). O senhor de 77 anos tido como implicante e excêntrico nos faz lembrar o que o Brasil tem de melhor. Sem nacionalismos, sem verde-amarelismos, dá uma ponta de orgulho de saber de tudo isso.
Bem-humorado, relembra os comentários do show do dia anterior, que falavam de seu atraso. Diz que depois disso, nem comeu direito naquele dia. Saíra correndo do hotel engolindo alguma coisa que nem chegava a ser um jantar. Tudo para não se atrasar para o segundo concerto. Ele diz isso sério. Depois ri. A platéia, que quer qualquer coisa do gênio, ri junto, nervosa. ''Tem gente que perde o amigo, mas não a notícia'', diz João e faz uma careta. Risos e aplausos. João sorri novamente. Muitos não entenderam e publicaram que ele estava de mau humor. Falta de presença de espírito desses outros.
Quando vêm os primeiros acordes, silêncio e tensão. Qualquer movimento em falso do pé ou uma respiração mais forte podem atrapalhar o homem. Eu só me mexia entre canção e outra. Respirava mais baixo que o canto de João, quase que aprendendo algum tipo de respiração de Yoga – temo atingir o Nirvana a qualquer momento da apresentação.
Realmente João canta e toca baixinho, mas nesse violão parece que traz a síntese da bateria de uma escola de samba. E quando toca, desfila clássicos na avenida que são nossos ouvidos. Ele toca as músicas que todos conhecemos, mas que não podemos cantar para não atrapalhar o mestre. Quase não dá vontade de cantar, aliás. O prazer é ouvir – o que coloca nos eixos a relação entre público e artista, subvertida por grandes espetáculos e pouca música (e o que não é de todo mal em alguns casos). Toca ''Wave'', ''Corcovado'', ''O pato'', (''Chega de Saudade'' ao vivo é linda), ''Estate'' – não me lembro. Quero ouvir; quero esquecer que tenho que escrever este texto; quero apenas eu e João como se estivéssemos sós na sala de sua casa.
Hora ou outra, João até fala. Diz que ama São Paulo cantando a música ''É o amor'', de Zezé de Camargo e Luciano. A platéia parece não acreditar. Mas aconteceu. Cariocas (e baianos – será que ele foi?) também puderam ver o show de João. No final do ano fará alguns concertos no Japão (para quem dedicou uma composição inédita na apresentação de São Paulo). Depois disso, é o fim de sua turnê neste ano. Será que volta logo? Tomara que sim. Farei de tudo para estar lá novamente. Espero que você faça o mesmo.

P.S.: Desculpem-me os detratores, mas de quem mais se pode dizer tudo isso o que foi dito aqui? Como diz o poema de Gonçalves Dias: “Meninos, eu vi!”.
______________
(Revista ZAZ - novembro de 2008)

14 de out. de 2008

Guerra e Paz
Em ''Risíveis Amores'', Kundera escreve algo mais ou menos assim, sobre uma de suas personagens: para esta, no amor, o flerte é o mais importante que o fato consumado. A personagem faz da ''... abordagem um exercício de virtuosismo considerado como um fim em si e, muitas vezes, não ir mais adiante. É por isso que ele se compara, não sem certa amargura, ao generoso atacante que dá bons passes para um companheiro de equipe, fazendo-o assim marcar gols fáceis e colher glórias sem grande esforço'', escreve. O que o escritor quer dizer é que muitas vezes o jogo da consquista vale mais que a finalização.
Menos literária, mas com o mesmo fio de pensamento de Kundera, há a piada entre os ''pegadores'' de plantão de que no amor, o que vale é pontuar - somar três pontos ao final. A vitória, no caso, não é baseada no número de gols, e sim na quantidade de conquistas, beijos e, quem sabe, algo a mais.
Por fim, há quem defenda que no futebol, o drible (ou um passe bem dado) é mais bonito que o gol. Se o gol é o amor consumado, o drible que deixa o zagueiro tonto é o flerte. Dessa forma, o balé sem classe de ataque e defesa do futebol pode ser comparado - até a náusea e o lugar-comum - com a dança da azaração entre homem e mulher.
O futebol, assim como a conquista, é o terreno da imprevisibilidade. Enquanto os jogadores de Coritiba e Atlético Paranaense duelavam no último domingo no Estádio Couto Pereira, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, homens e mulheres dividiam suas atenções entre o jogo e uns aos outros. Entre um lance e outro no campo, o flerte é o drible que acontece na arquibancada. Quase imperceptível, no meio da multidão que grita apaixonada, futuros casais vão surgindo. Casais efêmeros, é verdade, mas, ainda assim, casais.
Com mais mulheres frequentando estádios de futebol, a azaração que antes era restrita à festas e baladas, ganhou um novo terreno. Em um estádio, a geral é o campo onde o duelo da conquista acontece. ''Na geral rola muita paquera, pegação. Hoje estou casado, mas já peguei muita mulher aqui'', confidencia o torcedor Éder Sussolin, de 27 anos. A democracia da geral prevalece o surgimento da parquera. ''Na geral todo mundo é igual. Aqui você não precisa de carro ou roupa de marca para pegar mulher. Agora, em outro setores, como as cadeiras, a social, ninguém pega ninguém'', diz.
Com a experiência que diz ter, Sussolin afirma que dentro do estádio é até mais fácil para paquerar do que fora. ''O bom é que aqui você marca para ficar com ela depois'', conta ele e completa, enfático: ''Aqui no estádio, a mulherada vem para pegar. Pode ser feia, bonita, magra, gorda. Todas vêm para pegar''.
Em outro ponto do Couto Pereira, Marcel Oliveira despista, com um grossa aliança no dedo: ''Nunca peguei ninguém, mas tem muita mulher bonita no estádio''. Na visão dele, mulher vai ao futebol para ''interagir''. Completa o vago verbo explicando que enquanto umas querem realmente ver o jogo, outras ''querem caçar''.
Quando escuta a palavra ''caçar'', a torcedora Bruna Lucinda entra na conversa. ''Mulher não vem para caçar, não. Vem para ver o jogo. Quem fala isso é machista!'', dispara a tocedora, visivelmente enraivecida com a declaração. ''Não tem nada a ver falarem isso. Hoje, o futebol é coisa de família'', diz. Marcel contorna a declaração negando o que havia deixado no ar e tenta engatar um papo com Bruna. Ah, esses homens...
Maiores envolvidas no assunto, mulheres têm visões diferenciadas sobre o tema. A recepcionista Joyce Veiga, de 19 anos, observa, mesmo com o namorado a tira cola, que em um estádio de futebol existe ''bastante homem ''. Para ela, mulher vai ao estádio com três finalidades: ou para acompanhar marido e namorado (o caso dela), ou para assistir o jogo, ou para ver homem. Já seu namorado, o assistente administrativo Rodrigo Dei-Tos, de 23 anos, acha que o maior atrativo para elas é o futebol. ''Mulher não vem para paquerar, não, vem para ver o time'', podera. ''Se eu estivesse solteira, continuaria a vir'', diz Joyce, que passou a frequentar estádio com o início do namoro. Ah, essas mulheres...
Já para a balconista Franciele Cruz, de 27 anos, o estádio é o local para incentivar seu time do coração. Quando afirmam que mulher vai ao futebol apenas para paquerar, ela diz não estar nem aí. ''Acho que a declaração não é machista. Quem vem para ver o jogo mesmo, não liga para isso'', diz ela, mais calma na guerra (ou na paz) dos sexos e da bola. Em processo inverso a maioria, foi Franciele quem trouxe o marido para o jogo.
Um estádio de futebol é o lugar onde tudo acontece, onde o imaginável é possível. Até namoro entre atleticanos e coxa-brancas, provando que no amor e na guerra, tudo é válido. As torcedoras do Coritiba que foram ao estádio largaram os namorados em casa. É o caso da estagiária Bruna Ribas Machado, de 17 anos. ''Ele está vendo o jogo em casa'', revela. Para ela, que frenquetava partidas de futebol antes de namorar um atleticano, ficar com alguém dentro do estádio é impensável - ainda mais torcendo para o time rival do namorado. ''Adoro futebol. Venho pelo jogo'', completa.
A situação da administradora Daiane Kelen Sousa, de 23 anos, é semelhante: ela também deixara o namorado atleticano em casa. Fã de futebol, ela diz que nunca rolou nada com ninguém no estádio. ''Mesmo quando não namorava, nunca aconteceu. Sempre venho com os amigos'', conta. Para Daiane, há uma divisão quando o assunto é a intenção das mulheres que vão ao estádio. ''Acho que 50% vem para ver o jogo. A outra metade vem para parquerar, passear ou acompanhar o marido ou namorado'', acredita.
Entre todas a mulheres entrevistadas por este repórter, apenas uma admitiu que, sim, já ficara com alguém em um estádio de futebol. A estudante Caroline Paulini, de 17 anos, diz que já rolou algo ''com uma pessoa''. Não entrou em detalhes, mas diz que a conquista no estádio é possível, principalmente na geral.
Caroline é a prova de que, no campo da conquista, vencem todos. Já no manto verde do campo, Coxa e Atlético não passaram de um melancólico empate. Ninguém pegou ninguém: os dois morreram abraçados.
___________
(Folha de Londrina - setembro, 2008)