textos jornalísticos e afins;

14 de set. de 2008

Multiplicadores de idéias
"Olha, o que será que é aquilo?’’, apontou espantada a estudante de Nutrição Patrícia Ignácio, 19 anos. Ela conversava com outras duas amigas dentro de um imponente prédio da Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Paraná, onde estuda. O motivo de sua frase é uma tenda armada no meio do pátio da PUC. Em volta da tenda, uma roda de discussão, pessoas fazendo malabares, um grupo de teatro se apresentando e distribuição de preservativos.
A movimentação incomum que tanto espantou Patrícia faz parte de uma caravana da União Nacional dos Estudantes (UNE) que está rodando os 27 estados brasileiros promovendo debates sobre saúde, educação e cultura. Ao todo, serão 41 universidades visitadas, entre públicas e privadas, em mais de 32 mil quilômetros rodados e 277 horas de viagem até o dia 27 de novembro, quando finalmente a caravana desembarca em Brasília, o destino final. Depois de começar a empreitada pelos estados da região Sudeste, Curitiba recebeu ontem os 25 membros da equipe. Hoje, eles seguem para Florianópolis (SC) e depois Porto Algre (RS). Dessa forma, vão rodar o Brasil.
Na sombra de uma árvore da PUC, um grupo de jovens discutia, ontem pela manhã, temas como Lei Seca e descriminalização da maconha - tudo acompanhado pela presença de especialistas da caravana. A primeira mesa redonda começou tímida, com poucos participantes: disputava atenção dos estudantes com os malabares. Emival Dalat, coordenador geral da caravana e diretor de memórias do Movimento Estudantil (ME), tinha a esperança que durante a tarde e no início da noite a coisa esquentasse e que a adesão fosse maior. ‘’O público é pequeno, mas de qualidade. Os poucos que participam são multiplicadores das idéias’’, afirmou.
No Paraná, até o momento acompanhado pela Reportagem, os universitários não haviam aderido em massa as discussões. Patrícia, a estudante lá do início, disse que até participaria, mas naquele dia teria aula durante toda a tarde e o professor iria divulgar as notas de uma avaliação. Na verdade, ela nem sabia que a caravana estaria em sua universidade -foi informada pela reportagem.
Guilherme Fink, 21, estudante de Engenharia de Alimentos, confirmou que também não sabia das atividades, pois nada fora divulgado em sala. Mesmo assim estava ‘’matando’’ aula e participando do debate sobre drogas. ‘’Se essa estrutura que eles propõem é séria, acho que a divulgação do evento também deveria ser séria’’, criticou ele. Ainda assim, disse ser necessária a iniciativa e a participação dos colegas. ‘’É importante a universidade preparar os alunos para as várias situações da vida. Deveria haver mais debates’’, afirmou.
A visita da caravana da UNE às universidades brasileiras abre espaço para a indagação: os jovens estariam interessados em discutir assuntos mais sérios? Para o coodenador geral da caravana, sim. ‘’A receptividade tem sido interessante. Muitos se preocupam em discutir assuntos como Lei Seca, reforma na educação, questões culturais e temas que envolvem sua realidade. Em outros locais, a participação foi grande’’, disse. Guilherme discordou: ‘’a galera está por fora. Ninguém se engaja e quer se envolver’’.
O dia de atividades pela frente ainda poderia mostrar uma realidade diferente. Pela tarde, os universitários teriam atividades culturais como exibições de filmes, oficinas circenses e intervenções artísticas feitas pelo Circuito Universitário de Cultura e Arte (Cuca). Pela noite, a discussão seria sobre os temas principais da caravana da UNE: ‘’Saúde, Educação e Cultura’’. Em debate, o Sistema Único de Saúde (SUS), a reforma universitária e o acesso à cultura.
A caravana da UNE é uma parceria com o Ministério da Saúde. Além dos debates, distribui preservativos, faz alerta contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e realiza testes rápidos de HIV. A intenção é levar a discussão dos temas a 120 mil alunos de Instituições de Ensino Superior.
_____________
(Folha de Londrina - setembro/2008)

Nenhum comentário: