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10 de set. de 2008

fulano, foto
O tempo, independente de seu ângulo ou tema, continua passando. Passa por teorias estéticas, pela porta descascada ou pelo público que olha do lado de fora - mas que não entra, como quem impedisse fosse uma força de anjo exterminador. As coisas vão ficando velhas, deixando um vazio e uma angústia e Manoel de Barros escreveu que “De forma que recolhia coisas do nada, nadadeiras, falas de tontos, libélulas – coisas/ Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos”. Uma lata de tinta espalhada no chão ou a falta de uma mão para tocar a campanhia.
Franklin Nunes estuda Ciências Sociais.
Tipo um idéia efêmera, a fotografia tenta, vã, prender o momento pelos dentes. Ou então o que fica são memórias. O fotógrafo Franklin Nunes quis mostrar as suas, talvez de um tempo em que olhava para a cidade quando ela ainda acontece. Nos tempos misturados, o resultado é a exposição “memórias de franklin nunes” (sim, minúsculo), aberta desde o dia 24 de setembro na sala Joubert de Carvalho, ao lado da Biblioteca Central Bento Munhoz da Rocha Neto. A mostra fica no espaço até dia 11 de outubro e a entrada é de graça. Ele só quer mostrar a cidade, que os olhos cansados não nos deixa ver e perceber, diz.
Entre e olhe; assine o livro. Lá no fundo da sala, Nunes também olha as pessoas, assim como deitou seu olhar de fotógrafo sobre os espaços urbanos, procurando no comum – uma casa abandonada, uma porta descascada, o parapeito – resultados inusitados. Influência de Camus, isso. E de Manoel de Barros, aquele lá de cima, cuja a citação está na porta de entrada da exposição, mas que muitas vezes as pessoas insistem em não transpor, queixa-se.
Adoro o velho, ele diz. Isso está nas fotos, pregadas nas paredes com molduras de tapumes de construção – essas paredes de exposição nas ruas das cidades. Uma foto em cima da moldura pouco nobre de tapume, com cartazes descascados anunciando o show da banda punk Cólera. Mas isso já passou; e tornou as coisas velhas. É isso que se vê pela visão do fotógrafo.
“Estamos falando de fotografia, estamos falando do tempo”, corta o fotógrafo.
“São fotos simples, na composição, no enquadramento; são chapadas”, explica. Simples assim. Então não há porque ver isso, pode-se pensar. Há sim, pois está ali, naquelas imagens, o que não se espera, a geometria das ruas. “Chama atenção porque você não vê as pessoas olhando para ranhuras nas paredes”, diz Franklin Nunes, sobre suas memórias, as fotos.
Coincidência. Talvez por esse motivo místico suas fotos tenham parado na sala Joubert de Carvalho, que embora no centro, mais parece o retrato do abandono, pensa ele. “O espaço é ótimo, bem localizado, mas às vezes a sala fica fechada por muito tempo, não tem que cuide [das exposições] enquanto não estou aqui; a iluminação é péssima”, afaga para bater, enquanto sentado lá no fundo espera as pessoas entrarem.
O velho, o sujo, o esquecido. Essas são características do trabalho de Franklin Nunes.
Quando fala da sala, é como se estivesse falando da cidade que fotografa, que embora tenha nome (e não nos interessa saber: não há legendas nas fotos), é o mesmo todas as cidades: quando se fala da comunicação entre o sujeito urbano e o meio, todas as cidades são iguais. “São coisas comuns, todo mundo já viu isso: uma campanhia... um prédio velho...”, refere-se a suas fotos como se falasse de qualquer lugar.
Sua exposição ia se chamar “memórias de um fulano de tal”.
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(O Diário do Norte do Paraná - Setembro/2007)

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