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19 de set. de 2008

Fuga
Na sala da casa de Nariman Osman Chiah, de 21 anos, ainda há uma foto de seu casamento. No retrato, ela está sozinha, vestida de noiva, muito jovem e toda maquiada. Agora, o casamento com Ahmed Holeihel é só lembranças. A união que durou sete anos acabou de vez ontem, exatamente às 10h42, quando ela desembarcou no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O longo trajeto entre a fuga das agressões do marido no Líbano até a chegada ao lar do pais, em Matinhos, Litoral paranaense, durou mais de dois meses - entre a decisão de partir e o desembarque no Brasil.
A fuga de Nariman, com seu filho de seis anos a tira colo e grávida de cinco meses de uma menina, transformou-se em caso nacional. O desembarque no Afonso Pena foi carregado da mesma expectativa. Com atraso de quase uma hora no vôo vindo de São Paulo, Nariman desceu em solo paranaense e não segurou a emoção. Ao ver a família e abraçar a mãe, ambas choraram compulsivamente. Não conseguia falar - mas depois confirmou: estava aliviada.
De São José dos Pinhais seguiu para Matinhos, onde vai ficar na casa dos pais. Na cidade, foi recebida com festa, abraços e beijos de amigos e familiares. O rosto cansado denunciava a situação difícil pela qual passou. Em momentou ou outro, porém, sorriu. ''O pior momento da fuga foi a espera. Não sabia quando ia voltar'', disse, com um fio de voz. Também revelou estar assustada com a dimensão que o caso tomou no Brasil. ''Ainda não caiu a ficha''.
A comoção gerada pelo caso é em função das agressões que Nariman diz ter sofrido do marido. Cada vez mais intensas, as agressões motivaram sua fuga. A paranaense se casou com Ahmed no Líbano, aos 14 anos de idade, e depois se mudou para o Brasil. Viveu com ele por quatro anos até que se separaram durante quase dois anos, por causa de brigas constantes. Voltaram a viver juntos e retornaram para o Líbano, onde permaneceu por mais oito meses. Decidiu fugir depois que os problemas com o marido se agravaram.
No Líbano, as agressões que já aconteciam no Brasil se tornaram mais comuns. Ahmed rasgou os documentos de Nariman e passou a agredir também o filho. ''Ele mudou muito, por causa da diferença da cultura do País. Lá é diferente e ele fazia o que não podia fazer aqui'', revelou Nariman, sobre os costumes distintos entre Líbano e Brasil.
Ela disse, e a família confirmou, que agora o sofrimento é passado - assim como a foto do casamento que ainda resiste na estante da sala. ''Ela sofreu bastante e nós também. Ficamos os últimos três dias sem dormir'', contou o pai de Nariman, Osman Fleiman Chiah. Visivelmente emocinada, a mãe, Mahassen Chiah, não desgrudou da filha, entre lágrimas de alegria e beijos afetuosos. Agora pensa na felicidade ao lado da recém chegada.
Ainda com aparelhos nos dentes, apenas 21 anos e esperando o segundo filho - uma menina que vai ganhar o mesmo nome da avó - Nariman sabe que ainda tem a vida pela frente: ''Agora quero ser feliz. Vou tocar minha vida ao lado dos meus pais e de meus filhos''.
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(Folha de Londrina - Setembro/2008)

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