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10 de set. de 2008

Bituca
Não adianta tapar os olhos: o cigarro é um companheiro e tanto. Parceiro das horas solitárias, ele preenche o vazio da sala. Quando se está triste, nervoso, ansioso, estressado, idem. Também nos momentos de alegria e celebração, acende-se um cigarro para beber e brindar com a felicidade. Melancólica ironia. Levar um cigarro à boca é como beijar um inimigo.
A metáfora do companheiro traidor é usada pela jornalista Adélia Maria Lopes. Durante 25 anos, ela conviveu com o cigarro, como se vivendo um casamento perfeito - só que sem saber que o cônjuge a traía. Começou a fumar porque na juventude a regra que imperava era a da contestação, da liberdade acima de tudo. O cigarro tornou-se seu melhor companheiro. ‘’Ele é uma muleta’’, diz. Sim, escora as pessoas. Assim aconteceu com ela.
Quando andava de carro, lá estava o companheiro entre os dedos, amarelando-os. No banco de trás do automóvel, estavam os vários maços que ela olhava pelo retrovisor. Quando o telefone tocava, Adélia não sabia atendê-lo sem acender um cigarro. Dizer ‘’alô’’ era sinônimo de dar uns tragos. No trabalho, quando proibiram de fumar dentro da sala, o rendimento caiu pela metade. Para passar a ansiedade, só sabia andar de um lado para o outro. Não acalmou enquanto não se tornou exceção: com o cigarro aceso, poderia voltar tranqüilamente a tamborilar os dedos em suas máquina de escrever. Desmarcou uma viagem para Alemanha por causa do cigarro. Como iria se separar do companheiro durante o vôo? Jamais! Não foi.
Para quem chegou a fumar cinco (isso mesmo, cinco!) maços por dia - ou seja, 100 cigarros - ter largado o vício há quatro anos foi uma atitude que Adélia considera uma vitória. Ainda mais para ela, que gostava de fumar. Os dedos amarelados, o cheiro no corpo, o perigo de perder os dentes ou de desenvolver uma doença fatal. Por muito tempo, nada disso assustou Adélia. Fumava e ponto. ‘’Sempre achava engraçado pessoas dizerem que pararam de fumar; fazerem campanhas contra o fumo... Hoje sou exemplo’’, orgulha-se.
Quem a ouve falar, pode pensar que foi fácil. Não foi. Foram precisos alguns métodos para ajudar: acupuntura auricular e a laser, florais e um porre de cigarro. Na ocasião, fumou desde as primeiras horas da manhã até a madrugada do dia seguinte, em uma festa. No outro dia, usou a ressaca de tabaco para largar. ‘’Se ficar cinco minutos sem fumar, fico 10. Se ficar, 10, fico 15. Se ficar 15, nunca mais fumo’’, pensou. Dito e feito: a força de vontade e a terapia tiveram efeito. ‘’Hoje, peço perdão para as pessoas que eu fumei do lado’’. Na época em que parou, fumava a marca Free. Quando deixou a dependência, diz que ganhou outro tipo de liberdade: ‘’Agora tenho o prazer de ser livre’’.
Mais exemplo
A assessora parlamentar Sônia Maschke achava glamouroso fumar. Era o que se passava nas fitas de cinema quando tinha 16 anos. Fumar era sinônimo de luxo, charme, elegância. O cigarro seduz. Sônia só conseguiu se desvencilhar dos braços do galã há quatro meses, quando parou de fumar com ajuda de remédios. Só agora tem a certeza de que durante 30 anos foi enganada. O mocinho era, na verdade, o vilão.
Ela, porém, não se iludia. Sempre soube que a relação com o cigarro era perigosa. ‘’Já não sabia o que era vício e o que era prazer’’, diz. Ainda assim, não conseguia largar. Como se disse, o fumo tem armas que pegam pela boca. Sempre dá um jeito fazer a pessoa voltar ao vício. Com Sônia não foi diferente. Tentou parar por diversas vezes. Não dava. Eterno retorno. ‘’Adotei o lema dos alcólicos anônimos: vou ser sempre uma fumante, mas não vou fumar hoje’’, revela.
De vez em quando, Sônia se pega com vontade de fumar. Resiste bravamente. Acha que a marcação cada vez maior em cima dos fumantes ajuda. ‘’Hoje em dia é difícil ser fumante. Não há mais espaço como antigamente. Cada vez mais pessoas são contra. Quando fumava, me sentia como que infringindo uma lei’’, reconhece. Mesmo assim, custou a parar. Não tinha força. Como muita gente que tenta parar, arrumava desculpa para fumar. ‘’Qualquer situação que saía do controle era um motivo para acender um cigarro’’, conta.
Nessa época, o charme do cinema ‘’noir’’, com suas belas mulheres e homens com cigarro a tiracolo, foi substituído pelas batalhas épicas: era preciso vencer a guerra contra o fumo. Um remédio ajudou. Sônia finalmente encontrara sua fórmula para largar o vício. Agora o filme de sua vida vai ter um final mais feliz.
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(Folha de Londrina - Agosto/2008)

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