Acossado
Conceituado, o jornalista da Rede Globo Caco Barcellos, que esteve em Maringá na segunda-feira para falar na X Semana Integrada de Estudos de Comunicação da Faculdades Maringá (Siecom), é cauteloso ao emitir opiniões sem fundamento sobre os assuntos disparados em perguntas de profissionais e estudantes durante entrevista coletiva dada à imprensa. Tem fala mansa, mas firme. E parece cansado.
A Record News, os desafios da profissão de repórter investigativo, fórmulas de como se fazer uma boa reportagem, o trabalho na televisão, a cobertura de casos de corrupção: é possível enumerar por muito o sem-número de assuntos que Barcellos tem de responder. Parece pouco à vontade, mais no papel de celebridade que no de jornalista. Talvez quisesse estar do outro lado, que é onde ele desempenha com êxito seu papel. “Não há fórmulas para ser jornalista. Não há fórmulas na reportagem. Essa é a coisa mais fascinante: o exercício da curiosidade”, diz o homem que há pouco afirmara que não sabia avaliar o impacto sobre a Globo do canal de notícias 24 horas da Rede Record. “Não entendo nada além de fazer reportagem”, encerra o assunto.
Passa ao próximo. Continua a mesma calma. Como fazer bom Jornalismo? Para Barcellos, isso tem a ver com tratar as coisas com profundidades, ir além da superfície, é descer até o fundo. E no caso dele, escritor premiado (dois de seus livros, “Rota 66” e “Abusado” venceram o Prêmio Jabuti, o mais importante das letras nacionais), jornalista consagrado (em uma das perguntas na coletiva, alguém lembra de elogios rasgados do também jornalista Paulo Henrique Amorim), profundidade não é cair no que chama de “onda denuncista” que assola o País. Não basta denunciar, é preciso saber do que se fala; é preciso apurar os lados com o mesmo valor.
“Às vezes, não tomamos o devido cuidado. É fácil criticar. Mas será que estamos fazendo a denuncia com competência?”, pergunta, já revelando os meios que o tornaram o repórter que é. Além disso, é preciso “preocupação com o equilíbrio”, acredita. E torna a dizer: “executar com profundidade no exercício da profissão”. Repete as palavras “profundidade” e “equilíbrio”, usando sinônimos, como mantras.
Sobre seu atual trabalho, o quadro “Profissão Repórter”, exibido dentro do programa dominical “Fantástico”, diz que era um desejo antigo, mostrando ao telespectador as formas de produção da notícia. Trabalhando com jovens repórteres, Barcellos procura histórias que possam ser contadas no momento em que elas acontecem, dando a chance a quem assiste à reportagem de saber informações que só jornalistas – aqueles que vêem primeiro o fato, diz – normalmente têm. Barcellos conta que trabalha com os melhores repórteres, já que a emissora em que está é mais que visada. “São oito mil candidatos para 30 vagas”. Só depois vem a lembrança de que “Profissão: Repórter” é o título de um filme de Michelangelo Antonioni (1975), em que Jack Nicholson vive um repórter que se envolve com traficante de armas. Um mundo muito próximo do de Caco Barcellos: o da violência.
É o que se vê no livro “Rota 66”, em que ele investigou durante oito anos a polícia que mata em São Paulo. As ações da polícia paulista eram semelhantes as do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro, que é tema do famoso filme “Tropa de Elite”, que só chega ao cinema no dia 12 de outubro, mas que se tornou popular devido a pirataria desenfreada. Indagado sobre o filme, ele diz que ainda não o assistiu, mas quer fazê-lo.
Chega-se, finalmente, na violência. “Acompanho com espanto os números dessa polícia que é mais violenta do mundo”, denuncia, dizendo que, com certeza, as ações de grupos armados não matam ricos. É como se quisesse abrir os olhos das pessoas, ele que subiu aos morros, adentrou favelas e viu a realidade que o filme pretende mostrar. “Nós é que inventamos que o morro é um lugar que não devemos freqüentar”, afirma com conhecimento de causa. Para subir lá, basta ir, diz, o que importa é um discurso coerente.É o fim da entrevista coletiva, anunciam. O resto das indagações seriam respondidas à noite, durante a palestra. Mas ainda sobra tempo para perguntar se ele está preparando material novo; um livro, por exemplo. “Tenho”, responde e fica em silêncio. “O quê?”. “Só daqui cinco anos”, ele responde e ri. É a primeira vez que solta um riso maior. Só depois, tentado continuar a entrevista é que se descobre: ele estava mesmo cansado.
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(O Diário do Norte do Paraná - Outubro/2007)
- Lembrei do texto depois de ler o perfil de Barcellos no blog do Ricardo Alexandre. No texto, ele diz que acompanhou Caco na simpósio em Maringá. Eu não fui. No texto, Alexandre confirma a condição de astro na passagem do jornalista pela cidade: "Daqui ele vai para sua casa, compensar as poucas horas de sono no Paraná, mas à tarde sai novamente a campo para, em plena hora do rush, se espremer nos ônibus de São Paulo em busca de um personagem para o “Profissão Repórter”. Ele, que havia 24 horas era assediado feito um astro em Maringá, quer ouvir o mais comum dos homens."
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