textos jornalísticos e afins;

24 de set. de 2008

Respiro
É lógico que não se chega ao auto-conhecimento em quatro horas, mas esse tempo basta para descobrir o quanto não se conhece o próprio corpo. Esse espaço de tempo é suficiente para se ter a confirmação de como é frágil o conjunto de pele, carne, ossos, sangue, células, órgãos que unidos formam o corpo humano, onde a vida é misteriosamente abrigada.

Como a rotina de nosso cotidiano, o corpo também reage se qualquer hábito ao qual está acostumado é mudado. Reage até mesmo se esta mudança for em algo tão comum quanto respirar. No último sábado, esteve em Curitiba o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos. Ele ministrou um curso intensivo sobre respiração e meditação.

Penso que poderia conversar com ele sobre a importância da respiração para a vida e sugiro a pauta. Ao entrar em contato com a escola em que Santos estaria, ele convida este repórter para participar do curso de respiração. Aceito. Preparo-me com dois pensamentos: me abrir ao máximo possível para os ensinamentos e retirar da minha mente todo preconceito e ignorância. Imagino que os efeitos do curso só seriam possíveis se eu vencesse a barreira que existe entre mim e qualquer ensinamento vertical; que o curso só seria válido se eu me desnudasse de qualquer julgamento prévio e me entregasse àquilo com a mesma paixão de quem se dá ao amor.

Sou recebido na escola de yôga com beijos e cumprimentos de todos. Entro na sala toda azul e, mesmo com toda hospitalidade dos outros 12 alunos, sinto-me um organismo estranho e ignorante. Todo meu pensamento anterior sobre entrega fica abalado. No início da aula, fazemos o Pújá, espécie de cumprimento e agradecimento prévio pelo o que será ensinado a seguir. Fechamos os olhos pela primeira vez. Sinto-me observado, mesmo com os olhos de todos os outros cerrados. Ver novamente a luz é um alívio.

Descubro que o método Swásthya, o mais completo de todos os métodos de yôga que existem, é dividido em oito conceitos de ensinamento e que, durante aquelas quatro aulas de curso intensivo, vamos nos ater justamente ao quarto preceito: o Pránáyama. Em sânscrito, Pránáyama quer dizer ''expansão da energia vital por meio da respiração''. Até o momento, meu corpo permanecia igual, como eu o conhecera anteriomente.

Começamos respirando com uma técnica de limpeza das narinas, o Kapalabhati. A técnica consiste em expirar rapidamente, como fazemos quando estamos gripados e sopramos o ar pelo nariz para expelir secreções. Segundo mestre Sérgio Santos, o Kapalabhati faz com que os poros do pulmão se expandam, recebendo mais ar e estimulando os neurônios. A técnica é indicada para ser feita pela manhã, em um ritual de limpeza que também serve para estimular o cérebro. Mesmo com os benefícios anunciados, fazer o Kapalabhati foi constrangedor. Eu estava resfriado.

Entre um exercício e outro, mestre Sérgio faz também observações sobre a respiração. Diz que ''a respiração sustenta a vida. Ficamos sem comer, dormir, mas não sem respirar''. O comentário é óbvio e por isso mesmo assombrador: nunca percebemos que respiramos. O ato é comum, cotidiano, prosaico, rotineiro, repetitivo. A percepção de sua importância é quase nula. O mestre explica que na Índia, berço do yôga, dizem que quanto mais se respira, menos se vive. ''O tempo de vida é medido pelo número de inspiração e expiração'', comenta. A idéia, que a princípio é contraditória, não é de toda absurda quando o mestre lembra da importância de se respirar com qualidade: sempre pelas narinas e de forma abdominal.

Quando o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos fala sobre os indianos, lembro imediatamente dos velhos samanas do ''Sidarta'', de Hesse. Com belas imagens, combinando a determinação e fúria da personagem principal, Hesse cita a respiração: ''Já sabia pronunciar o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo''. ''Átman'' é traduzido literalmente como ''fôlego''. Representa a energia vital, a personalidade, o eu, a alma e o princípio da vida.

Era isso que eu buscava naquela aula? Talvez. Desse momento em diante, meu corpo, meu pulmão, meus membros, começam a sentir o poder dos exercícios. É o Uddiyana Bandha. Sentados, com as mãos nas pernas, somos estimulados a soltar todo o ar do pulmão e contrair o abdômen. Mestre Sérgio Santos dá um aviso ao qual não me atento: ''Os efeitos terapêuticos do yôga são imediatos''. Não dou bola, ignorante; estou mais preocupado em acertar a forma como se respira.

Mestre Sérgio ensina que a respiração pode ser dividida em quatro partes: baixa, média, alta e completa. Em todas, o diafragma tem papel fundamental, controlando a respiração. Para mostrar a respiração completa, mestre Sérgio se deita no chão e começa. Primeiro infla a barriga, na altura do umbigo, depois na altura das costelas e por fim do peito. Ele começa a se encher de ar de um modo impressionante, como nunca imaginei que pudesse acontecer. Infla feito um balão, como ele mesmo diz, e fico esperando, abismado, o momento em que irá flutuar. Seu corpo ficar enorme.

Somos estimulados a fazer o mesmo. Tento. Primeiro acerto, depois erro. Assim sigo todos os exercícios, em uma luta contra minha inexperiência e incapacidade de dominar meu próprio corpo, minha própria respiração. Penso que a ignorância é algo monstruoso. Depois de respirar por alguns minutos a respiração completa, sento-me. Sinto uma leve pressão na cabeça, algo que se parece com uma dor mas que não pode receber este nome. É como se não houvesse ar na minha cabeça e ela estivesse vazia (agora, relendo essa anotação, rio-me da metáfora que escrevi logo depois do exercício: ''... como se não houvesse ar na cabeça''). Posso chamar de dor o que sinto no abdômen e no peito. Meu pulmão, porém, sinto-o um pouco mais limpo.

Mestre Sérgio diz que a respiração baixa, feita com a barriga, é a mais importante de ser realizada em momentos de tensão, funcionando quase como um calmante. Quase não ouço - atitude que reconheço como ignorante, negando tudo o que me propus no início da aula. Estou mais interessado na percepção de meu corpo. Sinto partes que sabia que existiam, mas nunca tinha me atentado. A constatação de que não conheço partes do meu físico me amedrontam ao mesmo tempo que fascinam.

Já me sinto cansado, não de tédio, mas como se tivesse feito exercício físico, feito uma corrida. Os outros alunos estão corados e sem os agasalhos do início do curso. O próximo passo é aprender as fases da respiração e de que forma o prender e soltar do ar pode influenciar no cotidiano. Mestre Sérgio diz que quando o tempo de inspiração é maior que o de expiração, o resultado é estimulante. Do contrário, o resultado é sedante. ''O controle dessa prática deve ser colocada em prática conforme a necessidade do dia'', ensina.

Enquanto memorizo isso, me debato para conseguir executar a respiração no tempo certo. Percebo como é difícil controlar o corpo, a mente e outras coisas que parecem depender apenas do nosso querer. Já não sei o que é mente e o que é corpo; desconheço sobre o que tenho domínio e o que não tenho. Na técnica chamada de Bhástriká - hiper-oxigenação do pulmão por meio da respiração curta e rápida - me debato em silêncio para conseguir realizar o exercício. Não consigo combinar a inspiração e expiração ligeira com o movimento do diafragma. É como se o ar não chegasse, como se pulasse meu pulmão, indo das narinas direto para algum lugar no diafragma. Meu desconhecimento de fisiologia humana não me permite afirmar se isso é possível, mas a sensação foi essa: em poesia tudo é possível.

De tanto respirar, sinto que meu pulmão começa a queimar. A queimação sobe para a garganta, que parece agora em constante nó. Engulo seco. O ar pára na minha goela e o pulmão parece que vai explodir. Sou vencido por uma sensação de sufocamento. Pela descrição, parece algo claustrofóbico; pelo contrário, a sensação é de limpeza e descoberta. E um pouco de leveza.

A terceira etapa do curso combina respiração e meditação. Para mim, até então sem contato algum com o yôga, é o momento mais difícil. A chamada mentalização, em que mestre Sérgio pede para que os discípulos imaginem a energia irradiando do corpo, parece-me inconcebível, devido ao meu poder de concentração baixo. Não consigo imaginar, como pede que mentalize o mestre, feixes de luz em pontos de meu corpo, subindo pela minha coluna e chegando ao alto de minha cabeça. Não consigo conciliar essa idéia com o fato de que tenho de respirar direito.

No ápice de todo o curso, meu corpo já não me responde. A concentração foge de minha mente como um gás escapa por uma fresta. De todo modo, tento manter a posição ereta de minha coluna e respirar no ritmo certo. Mais uma vez, a concentração necessária para isso me foge, vai escapando junto com o ar que expiro. Abro os olhos e observo os companheiros de curso - já não me são mais estranhos. Olho-os. Estão sentados de olhos fechados. São, visivelmente, mais evoluídos que eu. Em suas faces tranqüilas, quase sem expressão, há a representação de tudo o que não consegui. De certa forma, contra minha vontade, invejo-os.

Novamente, ao observar seus rostos, recordo-me do livro de Hesse, a quem recorro novamente: ''... percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos''.

Aos poucos vão despertando, quando o curso acaba. Meus companheiros têm semblantes plácidos. São calmos e felizes. Eu não. Eu terminei o curso com a sensação de falta de ar, mesmo que o ar não me faltasse. Tive a certeza também da minha ignorância em relação a meu próprio corpo: me conheço muito menos do que pensava. Tenho certeza de que essa consciência é boa.
________________
(Folha de Londrina - Setembro, 2008)

19 de set. de 2008

Fuga
Na sala da casa de Nariman Osman Chiah, de 21 anos, ainda há uma foto de seu casamento. No retrato, ela está sozinha, vestida de noiva, muito jovem e toda maquiada. Agora, o casamento com Ahmed Holeihel é só lembranças. A união que durou sete anos acabou de vez ontem, exatamente às 10h42, quando ela desembarcou no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O longo trajeto entre a fuga das agressões do marido no Líbano até a chegada ao lar do pais, em Matinhos, Litoral paranaense, durou mais de dois meses - entre a decisão de partir e o desembarque no Brasil.
A fuga de Nariman, com seu filho de seis anos a tira colo e grávida de cinco meses de uma menina, transformou-se em caso nacional. O desembarque no Afonso Pena foi carregado da mesma expectativa. Com atraso de quase uma hora no vôo vindo de São Paulo, Nariman desceu em solo paranaense e não segurou a emoção. Ao ver a família e abraçar a mãe, ambas choraram compulsivamente. Não conseguia falar - mas depois confirmou: estava aliviada.
De São José dos Pinhais seguiu para Matinhos, onde vai ficar na casa dos pais. Na cidade, foi recebida com festa, abraços e beijos de amigos e familiares. O rosto cansado denunciava a situação difícil pela qual passou. Em momentou ou outro, porém, sorriu. ''O pior momento da fuga foi a espera. Não sabia quando ia voltar'', disse, com um fio de voz. Também revelou estar assustada com a dimensão que o caso tomou no Brasil. ''Ainda não caiu a ficha''.
A comoção gerada pelo caso é em função das agressões que Nariman diz ter sofrido do marido. Cada vez mais intensas, as agressões motivaram sua fuga. A paranaense se casou com Ahmed no Líbano, aos 14 anos de idade, e depois se mudou para o Brasil. Viveu com ele por quatro anos até que se separaram durante quase dois anos, por causa de brigas constantes. Voltaram a viver juntos e retornaram para o Líbano, onde permaneceu por mais oito meses. Decidiu fugir depois que os problemas com o marido se agravaram.
No Líbano, as agressões que já aconteciam no Brasil se tornaram mais comuns. Ahmed rasgou os documentos de Nariman e passou a agredir também o filho. ''Ele mudou muito, por causa da diferença da cultura do País. Lá é diferente e ele fazia o que não podia fazer aqui'', revelou Nariman, sobre os costumes distintos entre Líbano e Brasil.
Ela disse, e a família confirmou, que agora o sofrimento é passado - assim como a foto do casamento que ainda resiste na estante da sala. ''Ela sofreu bastante e nós também. Ficamos os últimos três dias sem dormir'', contou o pai de Nariman, Osman Fleiman Chiah. Visivelmente emocinada, a mãe, Mahassen Chiah, não desgrudou da filha, entre lágrimas de alegria e beijos afetuosos. Agora pensa na felicidade ao lado da recém chegada.
Ainda com aparelhos nos dentes, apenas 21 anos e esperando o segundo filho - uma menina que vai ganhar o mesmo nome da avó - Nariman sabe que ainda tem a vida pela frente: ''Agora quero ser feliz. Vou tocar minha vida ao lado dos meus pais e de meus filhos''.
_______________
(Folha de Londrina - Setembro/2008)

14 de set. de 2008

Justino e Bismarck
‘’Você queria que o serviço dos Correios chegasse aqui de forma mais eficiente?’’, é a pergunta. A primeira resposta é um sorriso tímido, encabulado, de quem não sabe se tem direito de dizer o que pensa. ‘’Se chegasse direto nas casas, seria melhor, né...’’, responde baixo o jovem, entre os dentes.
O diálogo travado é com Justino Padilha Miranda, 17 anos. Ele cuida, ao lado do irmão, Bismarck, 12, do único contato que cerca de mil famílias do bairro Guaraituba, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), têm com o resto do mundo. No bairro pobre, sem asfalto na maioria das ruas e água encanada em muitas casas, os dois são os responsáveis por uma espécie de agência informal dos Correios. Revezam-se para cuidar da caixa postal comunitária daquela região do bairro. Distribuem as correspondências das 9 às 15 horas sem ganhar nada. O trabalho é voluntário.
O correio oficial só chega até a pequena construção de madeira, onde funciona a sede comunitária. Geralmente, o carteiro vai de carro ou motocicleta e deixa as cartas ali. Depois, cada morador tem de passar no local para pegar suas correspondências.
A ‘’agência’’ informal da localidade do bairro é um puxadinho pequeno, caindo aos pedaços, que ainda resiste em pé em parte de um terreno do pai dos garotos. Nele, chova ou faça sol, a dupla Justino e Bismarck cuida de receber as correspondências, organizá-las e distribuí-las para os moradores daquela região do Guaraituba. O bairro, erguido sobre áreas de mananciais, não poderia existir. Muitos dos terrenos são de invasão. Hoje, mais de 45 mil pessoas vivem na região, famosa pela violência e pela falta de estrutura, como saneamento básico. Além do ponto zelado pelos dois, o Guaraituba - maior área de invasão do Paraná - tem outras sete ‘’agências’’ comunitárias de Correio.
Diariamente, ‘’a gente distribui umas 100, 150’’, contabiliza Bismarck. Falam baixo, os dois meninos. Falam pouco. Sorriem envergonhados por entre as toucas e as roupas de influência hip-hop. Dessa forma, na medida do possível, fazem o trabalho com afinco. ‘’Algumas pessoas reclamam do serviço, mas isso é normal’’, diz o mais novo. ‘’A gente faz isso para ajudar a comunidade’’, emenda o irmão mais velho.
A maioria das correspondências são contas de energia elétrica ou telefone, faturas de banco ou cartas de cobrança. Nisso, a ‘’agência’’ do Guaraituba é como qualquer outra do centro de Curitiba. Os Correios estimam que 95% das correspondências que circulam no País sejam dessa natureza.
No bairro, porém, as faturas raramente chegam na data certa. Quase sempre chegam vencidas. Essa é uma das principais reclamações dos moradores. ‘’Boleto está sempre atrasado. Vem sempre depois que vence a fatura’’, reclama Maximiliano Pereira da Silva, 30, desempregado. ‘’É tanto atraso que eu desanimei de vir pegar. Agora quem vem é minha mãe’’, conta.
A auxiliar de cozinha Maria Eva dos Santos tem de caminhar dez minutos para poder ter acesso a suas cartas ou contas. Nos três anos que mora no bairro, sempre usou o serviço. E elogia: ‘’A gente é bem atendido por eles’’. Ainda assim, diz que seria melhor receber as correspondências em casa, como todo mundo.
O trabalho na comunidade começou em 2001, com o pai de Bismarck e Justino - candidato a vereador que prefere não se identificar. O ponto recebe todos os tipos de correspondência, exceto carteira de motorista. Agora, os moradores se esforçam para edificar uma nova sede para o local. A construção será feita com materiais de doação e não tem previsão de quando ficará pronta. Enquanto isso, vão se virando como podem. Mesmo com atraso e dificuldade, as correspondências vão chegando...

Caos pontual
As caixas postais comunitárias não são exclusividade dos moradores do Guarituba. O que ocorre no bairro é só um exemplo comum a muitas outras localidades. No Paraná, elas existem em 363 locais, somando um total de 50 mil caixinhas divididas por 98 mil famílias. A prática é comum em lugares onde o acesso é difícil, perigoso ou carente de informações. Esse é o caso do bairro em Piraquara: as ruas não têm nomes oficiais, os números são repetidos, descoordenados, caóticos.
Esses empecilhos dificultam o trabalho dos Correios. Mesmo assim, as contas não deveriam chegar vencidas, diz Dorotey Gaudeda, gerente de distribuição dos Correios no Paraná. ''Acontece que muitas faturas são emitidas em cima da data de entrega'', diz. Quando indagado sobre o fato de que em outros locais de Curitiba não há atraso, ele diz que o tratamento entre a população não deve ser diferente. ''O exemplo de Piraquara é pontual'', ameniza.
O gerente de distribuição dos Correios ainda lembra: ''que existem reclamações, existem. Não é um serviço ideal, mas é um serviço''. Segundo Gaudeda, a maioria das pessoas tem acesso aos Correios, mas a qualidade das entregas depende do local onde se vive. ''O conforto depende da situação econômica'', revela.
Os atrasos ocorrem por que os Correios enfrentam problemas para chegar em muitas áreas, explica Gaudeda. Segundo ele, o serviço de caixas postais comunitárias é adotado em locais com problema de infra-estrutura e que não atendem requisitos como ruas com nome, placa de identificação e numeração oficial. Áreas com problemas de segurança pública também não recebem carteiro. É o caso de bairros comandados pelo tráfico de drogas. ''Nesses casos, quem sofre é a população'', diz Gaudeda. Povoados distantes das áreas urbanas, distritos e zonas rurais também têm dificuldades em receber cartas.
No Paraná, circulam uma média de 1,3 milhão de correspondências ao dia, segundo números dos Correios. Desse total, 50% está concentrado em Curitiba e região metropolitana. No Brasil, o número médio é de 35 milhões de cartas, boletos bancários, contas e faturas. Para fazer a distribuição desse montante, existem 55 mil carteiros no País. No Estado, são 3.190.

____________
(Folha de Londrina - Setembro/2008)
Multiplicadores de idéias
"Olha, o que será que é aquilo?’’, apontou espantada a estudante de Nutrição Patrícia Ignácio, 19 anos. Ela conversava com outras duas amigas dentro de um imponente prédio da Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Paraná, onde estuda. O motivo de sua frase é uma tenda armada no meio do pátio da PUC. Em volta da tenda, uma roda de discussão, pessoas fazendo malabares, um grupo de teatro se apresentando e distribuição de preservativos.
A movimentação incomum que tanto espantou Patrícia faz parte de uma caravana da União Nacional dos Estudantes (UNE) que está rodando os 27 estados brasileiros promovendo debates sobre saúde, educação e cultura. Ao todo, serão 41 universidades visitadas, entre públicas e privadas, em mais de 32 mil quilômetros rodados e 277 horas de viagem até o dia 27 de novembro, quando finalmente a caravana desembarca em Brasília, o destino final. Depois de começar a empreitada pelos estados da região Sudeste, Curitiba recebeu ontem os 25 membros da equipe. Hoje, eles seguem para Florianópolis (SC) e depois Porto Algre (RS). Dessa forma, vão rodar o Brasil.
Na sombra de uma árvore da PUC, um grupo de jovens discutia, ontem pela manhã, temas como Lei Seca e descriminalização da maconha - tudo acompanhado pela presença de especialistas da caravana. A primeira mesa redonda começou tímida, com poucos participantes: disputava atenção dos estudantes com os malabares. Emival Dalat, coordenador geral da caravana e diretor de memórias do Movimento Estudantil (ME), tinha a esperança que durante a tarde e no início da noite a coisa esquentasse e que a adesão fosse maior. ‘’O público é pequeno, mas de qualidade. Os poucos que participam são multiplicadores das idéias’’, afirmou.
No Paraná, até o momento acompanhado pela Reportagem, os universitários não haviam aderido em massa as discussões. Patrícia, a estudante lá do início, disse que até participaria, mas naquele dia teria aula durante toda a tarde e o professor iria divulgar as notas de uma avaliação. Na verdade, ela nem sabia que a caravana estaria em sua universidade -foi informada pela reportagem.
Guilherme Fink, 21, estudante de Engenharia de Alimentos, confirmou que também não sabia das atividades, pois nada fora divulgado em sala. Mesmo assim estava ‘’matando’’ aula e participando do debate sobre drogas. ‘’Se essa estrutura que eles propõem é séria, acho que a divulgação do evento também deveria ser séria’’, criticou ele. Ainda assim, disse ser necessária a iniciativa e a participação dos colegas. ‘’É importante a universidade preparar os alunos para as várias situações da vida. Deveria haver mais debates’’, afirmou.
A visita da caravana da UNE às universidades brasileiras abre espaço para a indagação: os jovens estariam interessados em discutir assuntos mais sérios? Para o coodenador geral da caravana, sim. ‘’A receptividade tem sido interessante. Muitos se preocupam em discutir assuntos como Lei Seca, reforma na educação, questões culturais e temas que envolvem sua realidade. Em outros locais, a participação foi grande’’, disse. Guilherme discordou: ‘’a galera está por fora. Ninguém se engaja e quer se envolver’’.
O dia de atividades pela frente ainda poderia mostrar uma realidade diferente. Pela tarde, os universitários teriam atividades culturais como exibições de filmes, oficinas circenses e intervenções artísticas feitas pelo Circuito Universitário de Cultura e Arte (Cuca). Pela noite, a discussão seria sobre os temas principais da caravana da UNE: ‘’Saúde, Educação e Cultura’’. Em debate, o Sistema Único de Saúde (SUS), a reforma universitária e o acesso à cultura.
A caravana da UNE é uma parceria com o Ministério da Saúde. Além dos debates, distribui preservativos, faz alerta contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e realiza testes rápidos de HIV. A intenção é levar a discussão dos temas a 120 mil alunos de Instituições de Ensino Superior.
_____________
(Folha de Londrina - setembro/2008)

11 de set. de 2008

Acossado
Conceituado, o jornalista da Rede Globo Caco Barcellos, que esteve em Maringá na segunda-feira para falar na X Semana Integrada de Estudos de Comunicação da Faculdades Maringá (Siecom), é cauteloso ao emitir opiniões sem fundamento sobre os assuntos disparados em perguntas de profissionais e estudantes durante entrevista coletiva dada à imprensa. Tem fala mansa, mas firme. E parece cansado.
A Record News, os desafios da profissão de repórter investigativo, fórmulas de como se fazer uma boa reportagem, o trabalho na televisão, a cobertura de casos de corrupção: é possível enumerar por muito o sem-número de assuntos que Barcellos tem de responder. Parece pouco à vontade, mais no papel de celebridade que no de jornalista. Talvez quisesse estar do outro lado, que é onde ele desempenha com êxito seu papel. “Não há fórmulas para ser jornalista. Não há fórmulas na reportagem. Essa é a coisa mais fascinante: o exercício da curiosidade”, diz o homem que há pouco afirmara que não sabia avaliar o impacto sobre a Globo do canal de notícias 24 horas da Rede Record. “Não entendo nada além de fazer reportagem”, encerra o assunto.
Passa ao próximo. Continua a mesma calma. Como fazer bom Jornalismo? Para Barcellos, isso tem a ver com tratar as coisas com profundidades, ir além da superfície, é descer até o fundo. E no caso dele, escritor premiado (dois de seus livros, “Rota 66” e “Abusado” venceram o Prêmio Jabuti, o mais importante das letras nacionais), jornalista consagrado (em uma das perguntas na coletiva, alguém lembra de elogios rasgados do também jornalista Paulo Henrique Amorim), profundidade não é cair no que chama de “onda denuncista” que assola o País. Não basta denunciar, é preciso saber do que se fala; é preciso apurar os lados com o mesmo valor.
“Às vezes, não tomamos o devido cuidado. É fácil criticar. Mas será que estamos fazendo a denuncia com competência?”, pergunta, já revelando os meios que o tornaram o repórter que é. Além disso, é preciso “preocupação com o equilíbrio”, acredita. E torna a dizer: “executar com profundidade no exercício da profissão”. Repete as palavras “profundidade” e “equilíbrio”, usando sinônimos, como mantras.
Sobre seu atual trabalho, o quadro “Profissão Repórter”, exibido dentro do programa dominical “Fantástico”, diz que era um desejo antigo, mostrando ao telespectador as formas de produção da notícia. Trabalhando com jovens repórteres, Barcellos procura histórias que possam ser contadas no momento em que elas acontecem, dando a chance a quem assiste à reportagem de saber informações que só jornalistas – aqueles que vêem primeiro o fato, diz – normalmente têm. Barcellos conta que trabalha com os melhores repórteres, já que a emissora em que está é mais que visada. “São oito mil candidatos para 30 vagas”. Só depois vem a lembrança de que “Profissão: Repórter” é o título de um filme de Michelangelo Antonioni (1975), em que Jack Nicholson vive um repórter que se envolve com traficante de armas. Um mundo muito próximo do de Caco Barcellos: o da violência.
É o que se vê no livro “Rota 66”, em que ele investigou durante oito anos a polícia que mata em São Paulo. As ações da polícia paulista eram semelhantes as do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro, que é tema do famoso filme “Tropa de Elite”, que só chega ao cinema no dia 12 de outubro, mas que se tornou popular devido a pirataria desenfreada. Indagado sobre o filme, ele diz que ainda não o assistiu, mas quer fazê-lo.
Chega-se, finalmente, na violência. “Acompanho com espanto os números dessa polícia que é mais violenta do mundo”, denuncia, dizendo que, com certeza, as ações de grupos armados não matam ricos. É como se quisesse abrir os olhos das pessoas, ele que subiu aos morros, adentrou favelas e viu a realidade que o filme pretende mostrar. “Nós é que inventamos que o morro é um lugar que não devemos freqüentar”, afirma com conhecimento de causa. Para subir lá, basta ir, diz, o que importa é um discurso coerente.É o fim da entrevista coletiva, anunciam. O resto das indagações seriam respondidas à noite, durante a palestra. Mas ainda sobra tempo para perguntar se ele está preparando material novo; um livro, por exemplo. “Tenho”, responde e fica em silêncio. “O quê?”. “Só daqui cinco anos”, ele responde e ri. É a primeira vez que solta um riso maior. Só depois, tentado continuar a entrevista é que se descobre: ele estava mesmo cansado.
____________
(O Diário do Norte do Paraná - Outubro/2007)
- Lembrei do texto depois de ler o perfil de Barcellos no blog do Ricardo Alexandre. No texto, ele diz que acompanhou Caco na simpósio em Maringá. Eu não fui. No texto, Alexandre confirma a condição de astro na passagem do jornalista pela cidade: "Daqui ele vai para sua casa, compensar as poucas horas de sono no Paraná, mas à tarde sai novamente a campo para, em plena hora do rush, se espremer nos ônibus de São Paulo em busca de um personagem para o “Profissão Repórter”. Ele, que havia 24 horas era assediado feito um astro em Maringá, quer ouvir o mais comum dos homens."

10 de set. de 2008

fulano, foto
O tempo, independente de seu ângulo ou tema, continua passando. Passa por teorias estéticas, pela porta descascada ou pelo público que olha do lado de fora - mas que não entra, como quem impedisse fosse uma força de anjo exterminador. As coisas vão ficando velhas, deixando um vazio e uma angústia e Manoel de Barros escreveu que “De forma que recolhia coisas do nada, nadadeiras, falas de tontos, libélulas – coisas/ Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos”. Uma lata de tinta espalhada no chão ou a falta de uma mão para tocar a campanhia.
Franklin Nunes estuda Ciências Sociais.
Tipo um idéia efêmera, a fotografia tenta, vã, prender o momento pelos dentes. Ou então o que fica são memórias. O fotógrafo Franklin Nunes quis mostrar as suas, talvez de um tempo em que olhava para a cidade quando ela ainda acontece. Nos tempos misturados, o resultado é a exposição “memórias de franklin nunes” (sim, minúsculo), aberta desde o dia 24 de setembro na sala Joubert de Carvalho, ao lado da Biblioteca Central Bento Munhoz da Rocha Neto. A mostra fica no espaço até dia 11 de outubro e a entrada é de graça. Ele só quer mostrar a cidade, que os olhos cansados não nos deixa ver e perceber, diz.
Entre e olhe; assine o livro. Lá no fundo da sala, Nunes também olha as pessoas, assim como deitou seu olhar de fotógrafo sobre os espaços urbanos, procurando no comum – uma casa abandonada, uma porta descascada, o parapeito – resultados inusitados. Influência de Camus, isso. E de Manoel de Barros, aquele lá de cima, cuja a citação está na porta de entrada da exposição, mas que muitas vezes as pessoas insistem em não transpor, queixa-se.
Adoro o velho, ele diz. Isso está nas fotos, pregadas nas paredes com molduras de tapumes de construção – essas paredes de exposição nas ruas das cidades. Uma foto em cima da moldura pouco nobre de tapume, com cartazes descascados anunciando o show da banda punk Cólera. Mas isso já passou; e tornou as coisas velhas. É isso que se vê pela visão do fotógrafo.
“Estamos falando de fotografia, estamos falando do tempo”, corta o fotógrafo.
“São fotos simples, na composição, no enquadramento; são chapadas”, explica. Simples assim. Então não há porque ver isso, pode-se pensar. Há sim, pois está ali, naquelas imagens, o que não se espera, a geometria das ruas. “Chama atenção porque você não vê as pessoas olhando para ranhuras nas paredes”, diz Franklin Nunes, sobre suas memórias, as fotos.
Coincidência. Talvez por esse motivo místico suas fotos tenham parado na sala Joubert de Carvalho, que embora no centro, mais parece o retrato do abandono, pensa ele. “O espaço é ótimo, bem localizado, mas às vezes a sala fica fechada por muito tempo, não tem que cuide [das exposições] enquanto não estou aqui; a iluminação é péssima”, afaga para bater, enquanto sentado lá no fundo espera as pessoas entrarem.
O velho, o sujo, o esquecido. Essas são características do trabalho de Franklin Nunes.
Quando fala da sala, é como se estivesse falando da cidade que fotografa, que embora tenha nome (e não nos interessa saber: não há legendas nas fotos), é o mesmo todas as cidades: quando se fala da comunicação entre o sujeito urbano e o meio, todas as cidades são iguais. “São coisas comuns, todo mundo já viu isso: uma campanhia... um prédio velho...”, refere-se a suas fotos como se falasse de qualquer lugar.
Sua exposição ia se chamar “memórias de um fulano de tal”.
_______________
(O Diário do Norte do Paraná - Setembro/2007)
Bituca
Não adianta tapar os olhos: o cigarro é um companheiro e tanto. Parceiro das horas solitárias, ele preenche o vazio da sala. Quando se está triste, nervoso, ansioso, estressado, idem. Também nos momentos de alegria e celebração, acende-se um cigarro para beber e brindar com a felicidade. Melancólica ironia. Levar um cigarro à boca é como beijar um inimigo.
A metáfora do companheiro traidor é usada pela jornalista Adélia Maria Lopes. Durante 25 anos, ela conviveu com o cigarro, como se vivendo um casamento perfeito - só que sem saber que o cônjuge a traía. Começou a fumar porque na juventude a regra que imperava era a da contestação, da liberdade acima de tudo. O cigarro tornou-se seu melhor companheiro. ‘’Ele é uma muleta’’, diz. Sim, escora as pessoas. Assim aconteceu com ela.
Quando andava de carro, lá estava o companheiro entre os dedos, amarelando-os. No banco de trás do automóvel, estavam os vários maços que ela olhava pelo retrovisor. Quando o telefone tocava, Adélia não sabia atendê-lo sem acender um cigarro. Dizer ‘’alô’’ era sinônimo de dar uns tragos. No trabalho, quando proibiram de fumar dentro da sala, o rendimento caiu pela metade. Para passar a ansiedade, só sabia andar de um lado para o outro. Não acalmou enquanto não se tornou exceção: com o cigarro aceso, poderia voltar tranqüilamente a tamborilar os dedos em suas máquina de escrever. Desmarcou uma viagem para Alemanha por causa do cigarro. Como iria se separar do companheiro durante o vôo? Jamais! Não foi.
Para quem chegou a fumar cinco (isso mesmo, cinco!) maços por dia - ou seja, 100 cigarros - ter largado o vício há quatro anos foi uma atitude que Adélia considera uma vitória. Ainda mais para ela, que gostava de fumar. Os dedos amarelados, o cheiro no corpo, o perigo de perder os dentes ou de desenvolver uma doença fatal. Por muito tempo, nada disso assustou Adélia. Fumava e ponto. ‘’Sempre achava engraçado pessoas dizerem que pararam de fumar; fazerem campanhas contra o fumo... Hoje sou exemplo’’, orgulha-se.
Quem a ouve falar, pode pensar que foi fácil. Não foi. Foram precisos alguns métodos para ajudar: acupuntura auricular e a laser, florais e um porre de cigarro. Na ocasião, fumou desde as primeiras horas da manhã até a madrugada do dia seguinte, em uma festa. No outro dia, usou a ressaca de tabaco para largar. ‘’Se ficar cinco minutos sem fumar, fico 10. Se ficar, 10, fico 15. Se ficar 15, nunca mais fumo’’, pensou. Dito e feito: a força de vontade e a terapia tiveram efeito. ‘’Hoje, peço perdão para as pessoas que eu fumei do lado’’. Na época em que parou, fumava a marca Free. Quando deixou a dependência, diz que ganhou outro tipo de liberdade: ‘’Agora tenho o prazer de ser livre’’.
Mais exemplo
A assessora parlamentar Sônia Maschke achava glamouroso fumar. Era o que se passava nas fitas de cinema quando tinha 16 anos. Fumar era sinônimo de luxo, charme, elegância. O cigarro seduz. Sônia só conseguiu se desvencilhar dos braços do galã há quatro meses, quando parou de fumar com ajuda de remédios. Só agora tem a certeza de que durante 30 anos foi enganada. O mocinho era, na verdade, o vilão.
Ela, porém, não se iludia. Sempre soube que a relação com o cigarro era perigosa. ‘’Já não sabia o que era vício e o que era prazer’’, diz. Ainda assim, não conseguia largar. Como se disse, o fumo tem armas que pegam pela boca. Sempre dá um jeito fazer a pessoa voltar ao vício. Com Sônia não foi diferente. Tentou parar por diversas vezes. Não dava. Eterno retorno. ‘’Adotei o lema dos alcólicos anônimos: vou ser sempre uma fumante, mas não vou fumar hoje’’, revela.
De vez em quando, Sônia se pega com vontade de fumar. Resiste bravamente. Acha que a marcação cada vez maior em cima dos fumantes ajuda. ‘’Hoje em dia é difícil ser fumante. Não há mais espaço como antigamente. Cada vez mais pessoas são contra. Quando fumava, me sentia como que infringindo uma lei’’, reconhece. Mesmo assim, custou a parar. Não tinha força. Como muita gente que tenta parar, arrumava desculpa para fumar. ‘’Qualquer situação que saía do controle era um motivo para acender um cigarro’’, conta.
Nessa época, o charme do cinema ‘’noir’’, com suas belas mulheres e homens com cigarro a tiracolo, foi substituído pelas batalhas épicas: era preciso vencer a guerra contra o fumo. Um remédio ajudou. Sônia finalmente encontrara sua fórmula para largar o vício. Agora o filme de sua vida vai ter um final mais feliz.
__________
(Folha de Londrina - Agosto/2008)
Paixão
Valdir Braga é aposentado, tem 71 anos e, até a tarde de segunda-feira, não tinha passagem alguma pela polícia. Sempre fora um cidadão de bem. Hoje, a Delegacia de Homicídios de Curitiba aguarda que ele se entregue. A vida do aposentado vai mudar e ele pode pegar entre seis e 20 anos de prisão. O motivo: amor e ciúmes.
Eram 14 horas de segunda-feira quando Braga matou, com golpes de facão, o também aposentado Zaquel Luiz Toledo, 76. Toledo era viúvo e despertou em Braga o sentimento que motivou o assassinato: ciúmes. Desconfiado de um caso entre sua esposa e o homem que alugava a casa onde vivia com mulher, Braga decidiu tirar satisfação.
O crime aconteceu no quintal que dividiam na Vila São Domingos, no bairro Cajuru. Ao lado do local onde ocorreu o assassinato havia um canil. As marcas de facão nos braços de Toledo remetem ao fato de que houve luta antes do crime.
Parentes da vítima ainda ouviram os gritos, mas não houve tempo para qualquer interferência. "Nesse momento, o homicídio já estava consumado’’, conta o delegado Edward Ferraz, da Delegacia de Homicídios.
Braga fugiu logo depois de desferir as três facadas -uma delas certeira, no coração. Fugiu em uma bicicleta azul. Sua mulher também está desaparecida e a polícia não tem mais detalhes sobre ela.
Agora, o aposentado vai responder por crime passional, que pode resultar em, no mínimo, seis anos de reclusão. Ainda assim, Braga pode ser beneficiado pelo Estatuto do Idoso, diz Ferraz. A lei garante uma diferenciação na aplicação da pena por causa de sua idade.
__________
(Folha de Londrina - setembro/2008)