Respiro
É lógico que não se chega ao auto-conhecimento em quatro horas, mas esse tempo basta para descobrir o quanto não se conhece o próprio corpo. Esse espaço de tempo é suficiente para se ter a confirmação de como é frágil o conjunto de pele, carne, ossos, sangue, células, órgãos que unidos formam o corpo humano, onde a vida é misteriosamente abrigada.
Como a rotina de nosso cotidiano, o corpo também reage se qualquer hábito ao qual está acostumado é mudado. Reage até mesmo se esta mudança for em algo tão comum quanto respirar. No último sábado, esteve em Curitiba o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos. Ele ministrou um curso intensivo sobre respiração e meditação.
Penso que poderia conversar com ele sobre a importância da respiração para a vida e sugiro a pauta. Ao entrar em contato com a escola em que Santos estaria, ele convida este repórter para participar do curso de respiração. Aceito. Preparo-me com dois pensamentos: me abrir ao máximo possível para os ensinamentos e retirar da minha mente todo preconceito e ignorância. Imagino que os efeitos do curso só seriam possíveis se eu vencesse a barreira que existe entre mim e qualquer ensinamento vertical; que o curso só seria válido se eu me desnudasse de qualquer julgamento prévio e me entregasse àquilo com a mesma paixão de quem se dá ao amor.
Sou recebido na escola de yôga com beijos e cumprimentos de todos. Entro na sala toda azul e, mesmo com toda hospitalidade dos outros 12 alunos, sinto-me um organismo estranho e ignorante. Todo meu pensamento anterior sobre entrega fica abalado. No início da aula, fazemos o Pújá, espécie de cumprimento e agradecimento prévio pelo o que será ensinado a seguir. Fechamos os olhos pela primeira vez. Sinto-me observado, mesmo com os olhos de todos os outros cerrados. Ver novamente a luz é um alívio.
Descubro que o método Swásthya, o mais completo de todos os métodos de yôga que existem, é dividido em oito conceitos de ensinamento e que, durante aquelas quatro aulas de curso intensivo, vamos nos ater justamente ao quarto preceito: o Pránáyama. Em sânscrito, Pránáyama quer dizer ''expansão da energia vital por meio da respiração''. Até o momento, meu corpo permanecia igual, como eu o conhecera anteriomente.
Começamos respirando com uma técnica de limpeza das narinas, o Kapalabhati. A técnica consiste em expirar rapidamente, como fazemos quando estamos gripados e sopramos o ar pelo nariz para expelir secreções. Segundo mestre Sérgio Santos, o Kapalabhati faz com que os poros do pulmão se expandam, recebendo mais ar e estimulando os neurônios. A técnica é indicada para ser feita pela manhã, em um ritual de limpeza que também serve para estimular o cérebro. Mesmo com os benefícios anunciados, fazer o Kapalabhati foi constrangedor. Eu estava resfriado.
Entre um exercício e outro, mestre Sérgio faz também observações sobre a respiração. Diz que ''a respiração sustenta a vida. Ficamos sem comer, dormir, mas não sem respirar''. O comentário é óbvio e por isso mesmo assombrador: nunca percebemos que respiramos. O ato é comum, cotidiano, prosaico, rotineiro, repetitivo. A percepção de sua importância é quase nula. O mestre explica que na Índia, berço do yôga, dizem que quanto mais se respira, menos se vive. ''O tempo de vida é medido pelo número de inspiração e expiração'', comenta. A idéia, que a princípio é contraditória, não é de toda absurda quando o mestre lembra da importância de se respirar com qualidade: sempre pelas narinas e de forma abdominal.
Quando o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos fala sobre os indianos, lembro imediatamente dos velhos samanas do ''Sidarta'', de Hesse. Com belas imagens, combinando a determinação e fúria da personagem principal, Hesse cita a respiração: ''Já sabia pronunciar o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo''. ''Átman'' é traduzido literalmente como ''fôlego''. Representa a energia vital, a personalidade, o eu, a alma e o princípio da vida.
Era isso que eu buscava naquela aula? Talvez. Desse momento em diante, meu corpo, meu pulmão, meus membros, começam a sentir o poder dos exercícios. É o Uddiyana Bandha. Sentados, com as mãos nas pernas, somos estimulados a soltar todo o ar do pulmão e contrair o abdômen. Mestre Sérgio Santos dá um aviso ao qual não me atento: ''Os efeitos terapêuticos do yôga são imediatos''. Não dou bola, ignorante; estou mais preocupado em acertar a forma como se respira.
Mestre Sérgio ensina que a respiração pode ser dividida em quatro partes: baixa, média, alta e completa. Em todas, o diafragma tem papel fundamental, controlando a respiração. Para mostrar a respiração completa, mestre Sérgio se deita no chão e começa. Primeiro infla a barriga, na altura do umbigo, depois na altura das costelas e por fim do peito. Ele começa a se encher de ar de um modo impressionante, como nunca imaginei que pudesse acontecer. Infla feito um balão, como ele mesmo diz, e fico esperando, abismado, o momento em que irá flutuar. Seu corpo ficar enorme.
Somos estimulados a fazer o mesmo. Tento. Primeiro acerto, depois erro. Assim sigo todos os exercícios, em uma luta contra minha inexperiência e incapacidade de dominar meu próprio corpo, minha própria respiração. Penso que a ignorância é algo monstruoso. Depois de respirar por alguns minutos a respiração completa, sento-me. Sinto uma leve pressão na cabeça, algo que se parece com uma dor mas que não pode receber este nome. É como se não houvesse ar na minha cabeça e ela estivesse vazia (agora, relendo essa anotação, rio-me da metáfora que escrevi logo depois do exercício: ''... como se não houvesse ar na cabeça''). Posso chamar de dor o que sinto no abdômen e no peito. Meu pulmão, porém, sinto-o um pouco mais limpo.
Mestre Sérgio diz que a respiração baixa, feita com a barriga, é a mais importante de ser realizada em momentos de tensão, funcionando quase como um calmante. Quase não ouço - atitude que reconheço como ignorante, negando tudo o que me propus no início da aula. Estou mais interessado na percepção de meu corpo. Sinto partes que sabia que existiam, mas nunca tinha me atentado. A constatação de que não conheço partes do meu físico me amedrontam ao mesmo tempo que fascinam.
Já me sinto cansado, não de tédio, mas como se tivesse feito exercício físico, feito uma corrida. Os outros alunos estão corados e sem os agasalhos do início do curso. O próximo passo é aprender as fases da respiração e de que forma o prender e soltar do ar pode influenciar no cotidiano. Mestre Sérgio diz que quando o tempo de inspiração é maior que o de expiração, o resultado é estimulante. Do contrário, o resultado é sedante. ''O controle dessa prática deve ser colocada em prática conforme a necessidade do dia'', ensina.
Enquanto memorizo isso, me debato para conseguir executar a respiração no tempo certo. Percebo como é difícil controlar o corpo, a mente e outras coisas que parecem depender apenas do nosso querer. Já não sei o que é mente e o que é corpo; desconheço sobre o que tenho domínio e o que não tenho. Na técnica chamada de Bhástriká - hiper-oxigenação do pulmão por meio da respiração curta e rápida - me debato em silêncio para conseguir realizar o exercício. Não consigo combinar a inspiração e expiração ligeira com o movimento do diafragma. É como se o ar não chegasse, como se pulasse meu pulmão, indo das narinas direto para algum lugar no diafragma. Meu desconhecimento de fisiologia humana não me permite afirmar se isso é possível, mas a sensação foi essa: em poesia tudo é possível.
De tanto respirar, sinto que meu pulmão começa a queimar. A queimação sobe para a garganta, que parece agora em constante nó. Engulo seco. O ar pára na minha goela e o pulmão parece que vai explodir. Sou vencido por uma sensação de sufocamento. Pela descrição, parece algo claustrofóbico; pelo contrário, a sensação é de limpeza e descoberta. E um pouco de leveza.
A terceira etapa do curso combina respiração e meditação. Para mim, até então sem contato algum com o yôga, é o momento mais difícil. A chamada mentalização, em que mestre Sérgio pede para que os discípulos imaginem a energia irradiando do corpo, parece-me inconcebível, devido ao meu poder de concentração baixo. Não consigo imaginar, como pede que mentalize o mestre, feixes de luz em pontos de meu corpo, subindo pela minha coluna e chegando ao alto de minha cabeça. Não consigo conciliar essa idéia com o fato de que tenho de respirar direito.
No ápice de todo o curso, meu corpo já não me responde. A concentração foge de minha mente como um gás escapa por uma fresta. De todo modo, tento manter a posição ereta de minha coluna e respirar no ritmo certo. Mais uma vez, a concentração necessária para isso me foge, vai escapando junto com o ar que expiro. Abro os olhos e observo os companheiros de curso - já não me são mais estranhos. Olho-os. Estão sentados de olhos fechados. São, visivelmente, mais evoluídos que eu. Em suas faces tranqüilas, quase sem expressão, há a representação de tudo o que não consegui. De certa forma, contra minha vontade, invejo-os.
Novamente, ao observar seus rostos, recordo-me do livro de Hesse, a quem recorro novamente: ''... percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos''.
Aos poucos vão despertando, quando o curso acaba. Meus companheiros têm semblantes plácidos. São calmos e felizes. Eu não. Eu terminei o curso com a sensação de falta de ar, mesmo que o ar não me faltasse. Tive a certeza também da minha ignorância em relação a meu próprio corpo: me conheço muito menos do que pensava. Tenho certeza de que essa consciência é boa.
Como a rotina de nosso cotidiano, o corpo também reage se qualquer hábito ao qual está acostumado é mudado. Reage até mesmo se esta mudança for em algo tão comum quanto respirar. No último sábado, esteve em Curitiba o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos. Ele ministrou um curso intensivo sobre respiração e meditação.
Penso que poderia conversar com ele sobre a importância da respiração para a vida e sugiro a pauta. Ao entrar em contato com a escola em que Santos estaria, ele convida este repórter para participar do curso de respiração. Aceito. Preparo-me com dois pensamentos: me abrir ao máximo possível para os ensinamentos e retirar da minha mente todo preconceito e ignorância. Imagino que os efeitos do curso só seriam possíveis se eu vencesse a barreira que existe entre mim e qualquer ensinamento vertical; que o curso só seria válido se eu me desnudasse de qualquer julgamento prévio e me entregasse àquilo com a mesma paixão de quem se dá ao amor.
Sou recebido na escola de yôga com beijos e cumprimentos de todos. Entro na sala toda azul e, mesmo com toda hospitalidade dos outros 12 alunos, sinto-me um organismo estranho e ignorante. Todo meu pensamento anterior sobre entrega fica abalado. No início da aula, fazemos o Pújá, espécie de cumprimento e agradecimento prévio pelo o que será ensinado a seguir. Fechamos os olhos pela primeira vez. Sinto-me observado, mesmo com os olhos de todos os outros cerrados. Ver novamente a luz é um alívio.
Descubro que o método Swásthya, o mais completo de todos os métodos de yôga que existem, é dividido em oito conceitos de ensinamento e que, durante aquelas quatro aulas de curso intensivo, vamos nos ater justamente ao quarto preceito: o Pránáyama. Em sânscrito, Pránáyama quer dizer ''expansão da energia vital por meio da respiração''. Até o momento, meu corpo permanecia igual, como eu o conhecera anteriomente.
Começamos respirando com uma técnica de limpeza das narinas, o Kapalabhati. A técnica consiste em expirar rapidamente, como fazemos quando estamos gripados e sopramos o ar pelo nariz para expelir secreções. Segundo mestre Sérgio Santos, o Kapalabhati faz com que os poros do pulmão se expandam, recebendo mais ar e estimulando os neurônios. A técnica é indicada para ser feita pela manhã, em um ritual de limpeza que também serve para estimular o cérebro. Mesmo com os benefícios anunciados, fazer o Kapalabhati foi constrangedor. Eu estava resfriado.
Entre um exercício e outro, mestre Sérgio faz também observações sobre a respiração. Diz que ''a respiração sustenta a vida. Ficamos sem comer, dormir, mas não sem respirar''. O comentário é óbvio e por isso mesmo assombrador: nunca percebemos que respiramos. O ato é comum, cotidiano, prosaico, rotineiro, repetitivo. A percepção de sua importância é quase nula. O mestre explica que na Índia, berço do yôga, dizem que quanto mais se respira, menos se vive. ''O tempo de vida é medido pelo número de inspiração e expiração'', comenta. A idéia, que a princípio é contraditória, não é de toda absurda quando o mestre lembra da importância de se respirar com qualidade: sempre pelas narinas e de forma abdominal.
Quando o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos fala sobre os indianos, lembro imediatamente dos velhos samanas do ''Sidarta'', de Hesse. Com belas imagens, combinando a determinação e fúria da personagem principal, Hesse cita a respiração: ''Já sabia pronunciar o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo''. ''Átman'' é traduzido literalmente como ''fôlego''. Representa a energia vital, a personalidade, o eu, a alma e o princípio da vida.
Era isso que eu buscava naquela aula? Talvez. Desse momento em diante, meu corpo, meu pulmão, meus membros, começam a sentir o poder dos exercícios. É o Uddiyana Bandha. Sentados, com as mãos nas pernas, somos estimulados a soltar todo o ar do pulmão e contrair o abdômen. Mestre Sérgio Santos dá um aviso ao qual não me atento: ''Os efeitos terapêuticos do yôga são imediatos''. Não dou bola, ignorante; estou mais preocupado em acertar a forma como se respira.
Mestre Sérgio ensina que a respiração pode ser dividida em quatro partes: baixa, média, alta e completa. Em todas, o diafragma tem papel fundamental, controlando a respiração. Para mostrar a respiração completa, mestre Sérgio se deita no chão e começa. Primeiro infla a barriga, na altura do umbigo, depois na altura das costelas e por fim do peito. Ele começa a se encher de ar de um modo impressionante, como nunca imaginei que pudesse acontecer. Infla feito um balão, como ele mesmo diz, e fico esperando, abismado, o momento em que irá flutuar. Seu corpo ficar enorme.
Somos estimulados a fazer o mesmo. Tento. Primeiro acerto, depois erro. Assim sigo todos os exercícios, em uma luta contra minha inexperiência e incapacidade de dominar meu próprio corpo, minha própria respiração. Penso que a ignorância é algo monstruoso. Depois de respirar por alguns minutos a respiração completa, sento-me. Sinto uma leve pressão na cabeça, algo que se parece com uma dor mas que não pode receber este nome. É como se não houvesse ar na minha cabeça e ela estivesse vazia (agora, relendo essa anotação, rio-me da metáfora que escrevi logo depois do exercício: ''... como se não houvesse ar na cabeça''). Posso chamar de dor o que sinto no abdômen e no peito. Meu pulmão, porém, sinto-o um pouco mais limpo.
Mestre Sérgio diz que a respiração baixa, feita com a barriga, é a mais importante de ser realizada em momentos de tensão, funcionando quase como um calmante. Quase não ouço - atitude que reconheço como ignorante, negando tudo o que me propus no início da aula. Estou mais interessado na percepção de meu corpo. Sinto partes que sabia que existiam, mas nunca tinha me atentado. A constatação de que não conheço partes do meu físico me amedrontam ao mesmo tempo que fascinam.
Já me sinto cansado, não de tédio, mas como se tivesse feito exercício físico, feito uma corrida. Os outros alunos estão corados e sem os agasalhos do início do curso. O próximo passo é aprender as fases da respiração e de que forma o prender e soltar do ar pode influenciar no cotidiano. Mestre Sérgio diz que quando o tempo de inspiração é maior que o de expiração, o resultado é estimulante. Do contrário, o resultado é sedante. ''O controle dessa prática deve ser colocada em prática conforme a necessidade do dia'', ensina.
Enquanto memorizo isso, me debato para conseguir executar a respiração no tempo certo. Percebo como é difícil controlar o corpo, a mente e outras coisas que parecem depender apenas do nosso querer. Já não sei o que é mente e o que é corpo; desconheço sobre o que tenho domínio e o que não tenho. Na técnica chamada de Bhástriká - hiper-oxigenação do pulmão por meio da respiração curta e rápida - me debato em silêncio para conseguir realizar o exercício. Não consigo combinar a inspiração e expiração ligeira com o movimento do diafragma. É como se o ar não chegasse, como se pulasse meu pulmão, indo das narinas direto para algum lugar no diafragma. Meu desconhecimento de fisiologia humana não me permite afirmar se isso é possível, mas a sensação foi essa: em poesia tudo é possível.
De tanto respirar, sinto que meu pulmão começa a queimar. A queimação sobe para a garganta, que parece agora em constante nó. Engulo seco. O ar pára na minha goela e o pulmão parece que vai explodir. Sou vencido por uma sensação de sufocamento. Pela descrição, parece algo claustrofóbico; pelo contrário, a sensação é de limpeza e descoberta. E um pouco de leveza.
A terceira etapa do curso combina respiração e meditação. Para mim, até então sem contato algum com o yôga, é o momento mais difícil. A chamada mentalização, em que mestre Sérgio pede para que os discípulos imaginem a energia irradiando do corpo, parece-me inconcebível, devido ao meu poder de concentração baixo. Não consigo imaginar, como pede que mentalize o mestre, feixes de luz em pontos de meu corpo, subindo pela minha coluna e chegando ao alto de minha cabeça. Não consigo conciliar essa idéia com o fato de que tenho de respirar direito.
No ápice de todo o curso, meu corpo já não me responde. A concentração foge de minha mente como um gás escapa por uma fresta. De todo modo, tento manter a posição ereta de minha coluna e respirar no ritmo certo. Mais uma vez, a concentração necessária para isso me foge, vai escapando junto com o ar que expiro. Abro os olhos e observo os companheiros de curso - já não me são mais estranhos. Olho-os. Estão sentados de olhos fechados. São, visivelmente, mais evoluídos que eu. Em suas faces tranqüilas, quase sem expressão, há a representação de tudo o que não consegui. De certa forma, contra minha vontade, invejo-os.
Novamente, ao observar seus rostos, recordo-me do livro de Hesse, a quem recorro novamente: ''... percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos''.
Aos poucos vão despertando, quando o curso acaba. Meus companheiros têm semblantes plácidos. São calmos e felizes. Eu não. Eu terminei o curso com a sensação de falta de ar, mesmo que o ar não me faltasse. Tive a certeza também da minha ignorância em relação a meu próprio corpo: me conheço muito menos do que pensava. Tenho certeza de que essa consciência é boa.
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(Folha de Londrina - Setembro, 2008)